O tédio na quarentena

Irritação, tristeza e tédio, são alguns dos sentimentos que tem feito parte dos nossos dias nos últimos meses. O confinamento obrigatório causou um impacto negativo em nossa saúde mental. Pudera! Estávamos habituados a comportamentos que, estressantes ou não, faziam parte da nossa rotina. Agora, com a impossibilidade de sairmos de casa, somado ao medo, a incerteza e a insegurança do momento, tem sido um desafio diário manter o equilíbrio emocional.
Antes do isolamento, reclamávamos da correria do dia a dia, do acúmulo de tarefas e da falta de tempo até para cuidar de si mesmo, nos dando a impressão de que nada, ou muito pouco, conseguíamos realizar. Hoje, este tempo tão idealizado está ai para tirarmos proveito, para usufruí-lo sem pressa, mas, paradoxalmente, isso não nos tranquiliza, pois, estranhamente, temos a sensação que também não estamos aproveitando este tempo, principalmente quando realizamos atividades que não nos dão prazer. Estamos entediados.
Para nós, que sempre estávamos de olho no que tínhamos que fazer amanhã, semana que vem etc., estarmos atentos ao presente, como agora, é quase uma novidade, mas que causa desconforto. Entretanto, esta insatisfação nem sempre é sentida de forma direta. As pessoas se queixam, mas muitas não sabem explicitar exatamente o que estão sentindo.
Essa dificuldade de nomear os sentimentos, de encarar o tédio, o vazio, e até mesmo uma crise de identidade, leva o indivíduo a ter comportamentos impulsivos e compulsivos, buscando conforto emocional através do excesso de comida, de bebida, tabaco ou do uso indiscriminado da Internet; comportamentos que em nada aliviam o mal-estar, gerando um círculo vicioso. Esta sensação de não estar produzindo algo útil pode desencadear quadros ansiosos e depressivos, afinal, numa sociedade em que tudo é cobrado pra ontem, ficar parado nunca foi visto com bons olhos.
O tédio nos convida a entrar em contato com nossas limitações, inseguranças e medos, que sempre foram camuflados na pressa diária, como uma válvula de escape para não refletirmos sobre aquilo que nos incomoda. Por isso, a necessidade de nos mantermos sempre ocupados.
Em si, é difícil ver algo de bom no tédio, mas, é possível tirar proveito dele se decidirmos romper com o ciclo da repetição e com a inércia que ele nos causa. A resposta pode estar no próprio projeto de vida ou na insatisfação com alguns pontos dela. Tudo merece uma reavaliação. É preciso mergulhar dentro de si e buscar novas – e melhores- formas de vivenciar o tempo, o que não significa realizar apenas atividades produtivas. É importante compreender isso. E sem culpa!
Em suma, reinventar-se não é fácil. No entanto, insistir em algo que não te motiva ou que não te faz feliz, só acentuará o vazio interno.
Créditos: Joselene Alvim- psicóloga

By Midia ABC

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