No primeiro semestre deste ano, o estado do Rio Grande do Sul alcançou a marca de 1.095 transplantes de órgãos. Esse número já representa quase 50% do total de procedimentos realizados ao longo do ano passado, quando foram contabilizados 2.446 transplantes, refletindo um crescimento de 8% em relação a 2024.
Ainda há espaço para melhorias na área de doação de órgãos, mesmo com o Rio Grande do Sul ocupando a terceira posição nacional entre os estados que mais realizam esses procedimentos.
Os dados, divulgados pela Central de Transplantes do Rio Grande do Sul, ligada à Secretaria Estadual da Saúde (SES), oferecem um panorama sobre as atividades realizadas no setor durante os primeiros seis meses deste ano e evidenciam a importância dos esforços que sustentam essas estatísticas.
A cirurgia que possibilita a salvação de uma vida por meio da transplante de um novo órgão é precedida por uma complexa rede de colaboração, que se inicia dentro dos hospitais e envolve logística externa, garantindo que um coração chegue rapidamente para ser implantado em outro paciente.
Quando um hospital identifica um potencial doador, uma equipe específica é acionada junto à Organização de Procura de Órgão (OPO), vinculada ao Sistema Estadual de Transplantes, como as equipes do Hospital São Lucas ou Santa Casa, ambos localizados em Porto Alegre. A Central é informada sobre o possível doador com antecedência adequada para organizar toda a logística necessária para o transplante.
Uma corrida contra o tempo para o transporte de órgãos
A abordagem à família do potencial doador só ocorre após a confirmação da morte encefálica. Entre os hospitais que possuem protocolos para captação de órgãos e tecidos está o Hospital Sapiranga, cuja equipe foi formada em 2022 e já realizou 12 captações desde então.
Conhecida como Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes (E-DOT), essa unidade é composta por enfermeiros das áreas de Emergência, UTI Adulto e Centro Cirúrgico, além de assistentes sociais, psicólogos e médicos. “A E-DOT desempenha papel fundamental na identificação dos possíveis doadores, acompanhamento dos protocolos relacionados à morte encefálica, apoio às famílias durante a decisão e articulação com a Central de Transplantes, garantindo que todas as etapas sejam conduzidas eticamente e em conformidade com a legislação”, explica Amanda Jaques, enfermeira coordenadora da E-DOT no Hospital Sapiranga.
Após a autorização da família para a doação dos órgãos do paciente, começa uma nova etapa: exames são realizados para verificar doenças pré-existentes ou condições que possam impedir a doação.
Os resultados desses exames são enviados à Central de Transplantes, que pode cruzar as informações com dados de pacientes na lista de espera. Automaticamente é gerada uma lista dos possíveis receptores. Se houver compatibilidade entre eles, mais uma fase na busca por salvar vidas é iniciada.
“Se hoje houver um doador no Sapiranga e os exames forem inseridos no sistema pela Central de Transplantes, os órgãos desse doador podem ser alocados em diferentes hospitais. Por exemplo: se o primeiro paciente da lista for atendido pelo Hospital de Clínicas, a Central entra em contato com eles. Para o coração, se o primeiro da lista for da Santa Casa, a equipe dessa instituição será acionada”, detalha Kelen Machado, funcionária da OPO da Santa Casa.
Depois que a Central organiza quais pacientes receberão os órgãos e quais equipes serão responsáveis por cada cirurgia, ela coordena junto à OPO e ao hospital o horário das operações para remoção dos órgãos.
“Para cada captação são envolvidos mais de cem profissionais da saúde; essa logística é considerável. Em um único caso podem participar equipes de quatro hospitais diferentes na mesma cirurgia. Assim é necessário coordenar todas essas equipes para atuarem simultaneamente”, esclarece Kelen.
A coleta de órgãos como coração e pulmões requer um tempo máximo disponível para transporte desses órgãos até o hospital onde serão implantados; esse prazo não deve ultrapassar quatro horas. Por isso essa logística torna-se uma verdadeira corrida contra o relógio. “Já houve casos em que utilizamos escolta policial devido ao trânsito intenso em determinados horários; contar com esses serviços (como BM, PRF e Guarda Municipal) é imprescindível. Até mesmo quando precisamos nos deslocar via avião ao interior do estado e retornar pelo aeroporto até Santa Casa ou Hospital de Clínicas, contamos com apoio da EPTC para garantir agilidade”, acrescenta Kelen.
A decisão sobre a doação sempre cabe à família
Todo o esquema montado para captação e transplante só atua após receber a autorização da família do potencial doador. “Segundo as leis brasileiras, a decisão final sobre a doação de órgãos após a morte sempre pertence à família. Mesmo que o indivíduo tenha manifestado vontade prévia em vida – seja por conversas com parentes ou registros formais –, ainda assim é necessária a autorização familiar para dar prosseguimento ao processo”, esclarece Amanda Jaques.
“É crucial considerar que estamos lidando com uma família enlutada pela perda de alguém querido. Ao mesmo tempo em que isso ocorre, a doação pode representar esperança para outras famílias que aguardam na fila por transplantes; trata-se da possibilidade real de transformar vidas através de um gesto generoso”, destaca Amanda Jaques.
A coleta efetiva dos órgãos só acontece após confirmar oficialmente a morte encefálica — caracterizada pela perda total e irreversível das funções cerebrais. Esse tipo específico de morte pode resultar de situações como traumatismos cranianos severos, acidentes vasculares cerebrais (AVCs), hemorragias cerebrais extensas ou paradas cardiorrespiratórias prolongadas.
Além disso, intoxicações graves ou afogamentos prolongados também podem levar à morte encefálica.
“É importante ressaltar que esse diagnóstico deve ser rigorosamente confirmado através de protocolos legais estabelecidos com avaliações clínicas específicas e testes apropriados. Somente após essa confirmação é que se considera viável discutir sobre a possibilidade da doação dos órgãos — sempre respeitando a necessidade da autorização familiar”, conclui Amanda.
