Shokonsai chega aos 100 anos de história com muita gratidão e mistérios em Álvares Machado

Ritual das velas vai ser mantido no próximo domingo (12), mas sem presença do público e com restrições — Foto: Stephanie Fonseca 1 de 11
Ritual das velas vai ser mantido no próximo domingo (12), mas sem presença do público e com restrições — Foto: Stephanie Fonseca

Ritual das velas vai ser mantido no próximo domingo (12), mas sem presença do público e com restrições — Foto: Stephanie Fonseca

Se para os japoneses o culto aos antepassados é algo importante, isso só poderia ser feito com festa. Uma das mais tradicionais é o Shokonsai, em Álvares Machado (SP). O evento completa 100 anos no próximo domingo (12) e é realizado no Cemitério Japonês da cidade. É um século de muitas histórias, marcadas por lutas, perdas, perseverança, conquistas e, principalmente, gratidão. Por causa da pandemia da Covid-19, a programação para comemorar este marco, no entanto, foi cancelada.

Cemitério Japonês

Cemitério Japonês em Álvares Machado — Foto: Heloise Hamada/G1 2 de 11
Cemitério Japonês em Álvares Machado — Foto: Heloise Hamada/G1

Cemitério Japonês em Álvares Machado — Foto: Heloise Hamada/G1

As primeiras famílias de imigrantes japoneses chegaram ao município, no Oeste Paulista, em 1917. Dois anos depois, um surto de febre amarela e outras doenças mataram vários japoneses. O cemitério mais próximo ficava em Presidente Prudente (SP), a 15 quilômetros de distância. Os corpos eram levados a pé, carregados por duas pessoas. Como a quantidade de mortes aumentou, as idas para a cidade vizinha ficou inviável. Então, Naoe Ogassawara pediu a permissão para fazer um cemitério em uma área de cinco alqueires, o que foi permitido. O primeiro sepultamento foi da menina Massae Watanabe, de apenas dois anos, no dia 19 de novembro de 1919.

Essa história é conhecida entre os descendentes de japoneses, mas a aposentada Eli Tatizawa e a professora Vilma Mayumi Tatibana fazem parte de um grupo que está levantando dados e escrevendo a memória do local. Ao todo, foram sepultadas 784 pessoas. O último enterro registrado tem a data de 1942. Porém, pelo cemitério é possível ver túmulos com a data de 1943.

Não foi por falta de espaço ou de demanda que não houve mais sepultamentos no local. No período da Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, elas falam que um decreto do então presidente Getúlio Vargas proibiu os enterros. Não foi identificada um data certa dessa restrição, mas foi algo que a colônia acatou.

Entre o trabalho de pesquisa, foram levantadas as informações das pessoas sepultadas. “Dos 784 sepultamentos, 68% são de crianças com até 5 anos. Outro dado é de que quase 48% eram bebês de até um ano, que nasceram e morreram ou já nasceram mortos”, disse Eli.

“Nós imaginamos que as mães tiveram de trabalhar muito na lavoura, subalimentadas, e as crianças, sem condições, nasciam e acabavam falecendo, não tinham condições”, ressaltou Vilma.

Em 1980, o cemitério e outras áreas no mesmo espaço, como o palco das apresentações culturais e a primeira escola fundada pelos imigrantes, foram tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo. O local é mantido pela Associação Cultural, Esportiva e Agrícola Nipo-Brasileira de Álvares Machado (Aceam).

Entre os japoneses e seus descendentes enterrados no local, há apenas um brasileiro: o Manoel. No registro de seu óbito, consta apenas o primeiro nome. Segundo a história, em uma noite de Ano Novo, ele viu que em uma casa havia uma briga.

“Um desconhecido invadiu uma casa onde estavam três japoneses. Eles tentaram expulsar esse homem, mas ele tinha um facão e começou a atacar. O Manoel entrou em defesa deles, mas todos morreram. Por ter morrido defendendo japoneses, ele foi enterrado no local”, relatou Vilma.

Manoel: apenas um não descendente de japoneses está enterrado no Cemitério Japonês — Foto: Heloise Hamada/G1 3 de 11
Manoel: apenas um não descendente de japoneses está enterrado no Cemitério Japonês — Foto: Heloise Hamada/G1

Manoel: apenas um não descendente de japoneses está enterrado no Cemitério Japonês — Foto: Heloise Hamada/G1

Em 1920, um ano após a criação do cemitério, foi realizado o Obon, que é o evento de finados feito no Japão.

“Nesse primeiro ano, foi uma coisa muito simples, uma data dentro do calendário japonês, e eles celebraram as missas. No ano seguinte, a ideia já evoluiu para o Shokonsai. Ao invés de ser o Obon, que tem uma data, eles fizeram o Shokonsai, que é uma data parecida, mas eles poderiam fazer no domingo, não necessariamente no Obon, e eles resolveram fazer o Shokonsai, começando a ter o caráter do festival e isso evoluiu”, contou Eli.

Shokonsai significa “convite às almas”.

“O japonês tem um nível de espiritualidade diferente, o que ele acha. O dia do Shokonsai é o dia que ele está convidando às almas de todos os antepassados para voltar. Para o japonês, isso é motivo de alegria, os antepassados novamente com eles. Por isso, entregam flores, comidas de que os antepassados mais gostavam e, além de tudo, tem música, tem tudo que significa alegria”, completou Eli.

Ao longo dos anos, o evento foi mudando. O presidente da Aceam, Alberto Sano, lembra como era a festividade quando era criança.

“Desde criança, eu tenho participado do Shokonsai. Antigamente, tinha sumô, kendô, corrida do cemitério de Álvares Machado até lá, maratona do cemitério de Álvares Machado até o cemitério da colônia japonesa e era muito divertido e tinha cinema, com filme japonês à noite. Todo Shokonsai tinha e era muito divertido. Agora, ultimamente, mudou bastante, não tem mais sumô, kendô, mas tem bon odori. Tem a música japonesa, o karaokê, é muito divertido também. Tem as danças folclóricas japonesas”, relatou.

Shokonsai completa 100 anos em 2020 — Foto: Stephanie Fonseca 4 de 11
Shokonsai completa 100 anos em 2020 — Foto: Stephanie Fonseca

Shokonsai completa 100 anos em 2020 — Foto: Stephanie Fonseca

Os mistérios

Ritual das velas á o ápice do Shokonsai — Foto: Stephanie Fonseca/G1 5 de 11
Ritual das velas á o ápice do Shokonsai — Foto: Stephanie Fonseca/G1

Ritual das velas á o ápice do Shokonsai — Foto: Stephanie Fonseca/G1

Em 99 anos de evento, nunca choveu no dia. Esse também é um dos mistérios passados de geração para geração, mas que não tem um motivo. Ninguém sabe explicar o porquê do tempo bom no segundo domingo de julho, todo mundo só sabe que isso acontece.

“É místico, se a gente for analisar. São 99 anos que não houve chuva no dia do Shokonsai. No dia anterior, teve vários Shokonsai que para chegar aqui era uma dificuldade muito grande, a gente tinha a estrada de terra. Então, chovia até a madrugada, mas no dia era sol o dia inteiro”, relatou o vice-presidente da Aceam, Luiz Takashi Katsutani.

Outro mistério é durante o ritual das velas. Às 17h, voluntários colocam uma vela em cada túmulo e todas queimam por inteiro. O secretário da Aceam, Alberto Yukio Nakada, participa do Shokonsai há 40 anos e tem na memória o que sentiu na primeira vez que presenciou esse momento.

“Eu até duvidava, e as velas se mantinham acesas em todos os túmulos. A gente não quer acreditar, mas a gente sente alguma coisa bastante diferente, eu entendo que é uma coisa mística”, explicou.

Shokonsai - Cemitério Japonês — Foto: Stephanie Fonseca 6 de 11
Shokonsai – Cemitério Japonês — Foto: Stephanie Fonseca

Shokonsai – Cemitério Japonês — Foto: Stephanie Fonseca

Cancelamento

Durante essas décadas, só se tem notícia de que não teve o Shokonsai também no período da Segunda Guerra Mundial. Oficialmente, somente em 2020 a festa foi cancelada. O motivo: a pandemia da Covid-19. Para não passar em branco, o ritual das velas será mantido, mas com restrições. Não vai ter as apresentações de dança, karaokê, o Bon Odori, e as comidas típicas.

“O que nós vamos manter é a cerimônia das velas, às 17h, com bastante cuidado também. Já foram convocados jovens para que não tenha a participação de pessoas mais idosas”, salientou Katsutani.

Para o centenário, havia uma programação especial e a expectativa de um público de até 3 mil pessoas. A inauguração do Parque das Cerejeiras estava prevista para este domingo (12). Próximo ao cemitério foi feito um lago e 97 cerejeiras foram plantadas.

“Infelizmente, a pandemia desacelerou o processo. Mas nós vamos continuar o trabalho da implantação para que no ano que vem a gente tenha implantado o Parque das Cerejeiras”, comentou Katsutani.

Para o Centenário do Shokonsai foi feito um lago e o Parque das Cerejeiras — Foto: Heloise Hamada/G1 7 de 11
Para o Centenário do Shokonsai foi feito um lago e o Parque das Cerejeiras — Foto: Heloise Hamada/G1

Para o Centenário do Shokonsai foi feito um lago e o Parque das Cerejeiras — Foto: Heloise Hamada/G1

Katsutani ainda ressalta que a colônia japonesa contribuiu para o desenvolvimento da região e também do país. Ele destacou que o centenário do Shokonsai também reforça o agradecimento aos brasileiros.

“Uma das coisas que eu acho importante, que foi dito no centenário da imigração japonesa, que uma das coisas que nós temos que ter para com o Brasil é a gratidão. A gratidão de ter recebido nossos pais, avós, que fincaram as raízes aqui no Brasil. Então, nós temos que ter sempre em mente essa gratidão com o Brasil, de ter recepcionado nossos pais dando condições para que eles se desenvolvessem aqui”, salientou.

Ele enfatizou que é dever de todos os descendentes manter as tradições.

“A gente tem que ter essa gratidão de ter a oportunidade de trabalhar para fazer essa preservação. Se não fossem nossos antepassados, nós não estaríamos aqui com todo esse legado, de reconhecimento, das qualidades e também da cultura japonesa. Hoje a gente até brinca que tem mais restaurante japonês do que churrascaria. O pessoal aderindo à nossa cultura, que gosta da nossa cultura na parte da dança, da música e da gastronomia. Isso nos deixa orgulhosos, de pertencermos, de sermos descendentes de japoneses e de termos a obrigação de manter esse legado”, pontuou.

O presidente da Liga das Associações Culturais Nipo-Brasileiras da Alta Sorocabana, Toshio Koketsu, frisou que o centenário do Shokonsai é um grande marco.

“Nós estamos passando para uma era totalmente diferente. A tradição que, até então, foi trazida dos nossos antepassados e estamos fazendo ainda, certamente, vai mudar, mas nessa mudança acredito que nossos jovens que estão acompanhando vão herdar esse legado e vão levar adiante. Esse marco do centenário é muito importante”, disse.

Shokonsai, em Álvares Machado — Foto: Stephanie Fonseca 8 de 11
Shokonsai, em Álvares Machado — Foto: Stephanie Fonseca

Shokonsai, em Álvares Machado — Foto: Stephanie Fonseca

Cemitério Japonês em Álvares Machado — Foto: Heloise Hamada/G1 9 de 11
Cemitério Japonês em Álvares Machado — Foto: Heloise Hamada/G1

Cemitério Japonês em Álvares Machado — Foto: Heloise Hamada/G1

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Cemitério Japonês em Álvares Machado — Foto: Heloise Hamada/G1

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Cemitério Japonês em Álvares Machado — Foto: Heloise Hamada/G1

Cemitério Japonês em Álvares Machado — Foto: Heloise Hamada/G1

By Midia ABC

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