
Região composta por 10 municípios ultrapassou os mil mortos nesta terça-feira (4). Em 133 dias, a Covid-19 matou mais de mil moradores do Alto Tietê. Em números, é como se três aviões boeing que transportam mais de 300 passageiros caíssem na região nesse período. São filhos, pais, mães, irmãos e amigos que tiveram os sonhos interrompidos pelo novo coronavírus. Fica o legado de cada um, além da saudade que deixaram em tanta gente.
Abaixo, parte das histórias e rostos que o G1 mostrou, na intenção de que essas partidas não ficassem apenas em números.
Orlando Tavares Pinheiro
Médico Orlando Pinheiro trabalha na linha de frente de combate a Covid-19, em Santa Isabel
Marcelo Arena/Arquivo Pessoal
Diabético, o cirurgião Orlando Tavares Pinheiro sabia o risco que corria ao atender pacientes em uma UTI, em Santa Isabel (SP) para Covid-19. A esposa dele, Arlete Alves da Silva, chegou a pedir que deixasse o trabalho, mas ele respondeu em uma mensagem de texto: “Meu lugar é aqui, na frente de batalha”. Orlando morreu no dia 21 de julho, no Hospital das Clínicas de São Paulo, depois de 20 dias entubado.
Suely dos Santos
Suely é lembrada pela família como heroína e profissional que amava o que fazia
Raíssa Oliveira
Suely tinha 45 anos, ficou feliz ao conquistar uma vaga para trabalhar no Hospital de Campanha de Suzano. Desde que a pandemia começou, a técnica de enfermagem queria ajudar de alguma forma. A família conta que ela amava a profissão e adorava ajudar ao próximo. Deixou três filhos, incluindo uma de 3 anos. Também deixou uma netinha de 1 ano.
Doralice Medeiros Teixeira
Doralice Teixeira morava em Ferraz de Vasconcelos e morreu de Covid-19, depois de 56 dias de internação
Deise Caroline Teixeira/ Arquivo Pessoal
Para a filha Deise Caroline Teixeira, de 31 anos, Doralice era mais que uma mãe. Era uma amiga, parceira, guerreira. Há 15 anos perdeu um filho. Há sete, o marido, mas seguiu. Gostava de viajar, era baladeira e não perdia uma festa com os amigos. A auxiliar de produção falava sorrindo e, segundo a filha, “só não gostava dela quem não a conhecia”. No dia 13 de maio, internada em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), Doralice completou 61 anos de vida. No dia 3 de junho, infelizmente, perdeu a batalha após 56 dias de luta contra o coronavírus.
Miriam Bertolino de Oliveira
Miriam Bertolino de Oliveira descobriu que estava com coronavírus poucos dias após o aniversário
Amanda Oliveira/Arquivo Pessoal
A auxiliar de enfermagem Miriam Bertolino de Oliveira, de 53 anos, dedicou quase 30 anos da sua vida à profissão e levou vários sobrinhos a escolherem a área da saúde como ofício. Também cuidava dos pais e do único irmão que, como ela, não tinha casado e nem tido filhos. A família a descreve como luz. Apenas há dois anos tinha começado a cuidar de si. Estava namorando e pretendia se casar em dezembro, mas os sonhos foram interrompidos pelo novo coronavírus.
Juliana Norberto da Silva
Juliana ao lado das duas filhas, por quem nutria grande amor
Arquivo Pessoal/Marcela Alessandra
A auxiliar de enfermagem tinha 40 anos era mãe de duas filhas. Por muitos anos, Juliana nutriu o sonho de trabalhar na área da saúde, até que um dia conseguiu realizá-lo, na Santa Casa de Santa Isabel. Uma das filhas chegou a sugerir que a mãe mudasse de emprego neste momento de pandemia, mas o amor pela profissão falou mais alto: “Ela quis continuar cuidando de vidas. Não queria deixar de cuidar das pessoas”.
Maria Aleixo Messias dos Santos
Maria Aleixo Messias dos Santos morreu vítima da Covid-19 após mais de um mês internada.
Karen Santos/Arquivo Pessoal
Apesar de morar na capital, Maria trabalhou como auxiliar de enfermagem por mais de 20 anos na região. Acumulava mais de um emprego, mas como já havia se aposentado em dois deles, decidiu se manter em apenas um e atuava num posto de saúde de Poá.
Apesar de ter 61 anos, diabetes, hipertensão e arritmia cardíaca, não se afastou durante a pandemia. A auxiliar de enfermagem era ativa. Não gostava de ficar em casa. A família lamenta o enterro sem roupa bonita e maquiagem, como ela gostava de usar. Deixou três filhos, dois netos e uma bisneta.
Silvio Faria de Souza
CDP de Suzano registra morte de agente penitenciário por coronavírus
Reprodução/Facebook
Silvio tinha 47 anos. Ele era agente penitenciário e atuava na portaria do Centro de Detenção Provisória de Suzano. Nas redes sociais, onde Silvio exibia com orgulho a profissão que exercia, amigos e familiares registraram a saudade em várias mensagens de despedida. A morte dele foi a primeira entre funcionários do sistema prisional da região do Alto Tietê.
Hueber Pereira
Enfermeiro de Arujá morreu vítima de Covid-19 em Arujá.
Nelciana Santiago/Arquivo Pessoal
O enfermeiro Hueber Pereira Santiago, de 41 anos, sempre soube onde queria chegar. Ainda morava no povoado de Bom Prazer, em Lapão (BA), quando decidiu que iria ser enfermeiro e iria morar em São Paulo. Para realizar o sonho, vendia coxinha e cachorro quente. Juntou dinheiro, se mudou e cursou graduação em enfermagem, além de duas pós-graduações. Nunca parou de estudar. Hueber chegou à chefia do setor na Santa Casa de Santa Isabel. Quando começou a pandemia do coronavírus, os pais estavam em São Paulo. Sabendo a “guerra” que enfrentaria, o enfermeiro levou os idosos de volta à Bahia para protegê-los e voltou para trabalhar. Quando sentiu os primeiros sintomas, se isolou e protegeu a todos do vírus. Deixou um filho.
Valdenor Almeida
Valdenor Almeida tinha 71 anos e morreu 23 dias após o filho
Reprodução/Facebook
Valdenor tinha 71 anos e morreu 23 dias depois do único filho, Aleksandro Silva de Almeida, de 42 anos. Os dois moravam na mesma casa e foram infectados pelo novo coronavírus. Pai e filho trabalhavam juntos como encanadores em obras. Segundo a família eram pessoas maravilhosas e, dia ou noite, estavam disponíveis para o trabalho.
Zemilda Silva do Nascimento Gonçalves
Zemilda era conhecida pelo bom humor e a doação ao filho que tem síndrome de down.
Zileide Nascimento/Arquivo Pessoal
Zemilda Silva do Nascimento Gonçalves tinha 54 anos e deixou o filho Pedro de 14 anos. O adolescente tem síndrome de down e os cuidados com ele tomavam boa parte da rotina dela. Zemilda o levava à Apae para fisioterapia, equoterapia e fonoaudióloga. Na escola onde o menino estuda, Zemilda ficou conhecida pela alegria e por ser muito participativa em todas as atividades. Segundo as irmãs de Zemilda, Pedro deve ir morar com uma irmã por parte de pai em São Paulo.
Elisabete dos Santos da Silva
Elizabeth era conhecida por sempre estar sorridente
Arquivo Pessoal/Claudia Santos da Silva Amador
Trabalhava como professora e levava a profissão como uma missão. Com artrite reumatoide, usava muletas e chegou a ir dar aulas em uma cadeira de rodas. No dia 27 de abril começou a tossir e morreu em 10 de maio. Foi voluntária do CVV durante anos e trabalhou muitas noites ouvindo as pessoas. Também era apaixonada por animais e sempre alimentava os que vivem nas ruas. Será lembrada pelo sorriso constante.
Julio Cesar
Júlio César e mãe foram vítimas da Covid-19 em Ferraz de Vasconcelos
Viviane Cristina da SIlva Vital/ Arquivo Pessoal
Júlio César morreu aos 46 anos, 12 dias depois da mãe, Maria Helena, que também foi vítima de Covid-19. Ele deixou esposa e dois filhos.
Viviane, irmã de Júlio César, diz que ele “era uma pessoa com o coração enorme, que ajudava todo mundo. Ele tirava da boca dele, do bolso. Meu irmão era um exemplo de homem, correto, certo, não gostava de nada de errado”.
Manoel de Souza
Manoel de Souza morreu em consequência da Covid-19 na noite de domingo
Fabio Mota de Souza/Arquivo Pessoal
Manoel de Souza era porteiro e tinha 61 anos. Ele enfrentava problemas cardíacos e tinha diabetes. Mesmo isolado desde o início da pandemia, contraiu a doença. Ele deixa três filhos e quatro netos.
Edson Yukinari Takeda
Médico de Mogi das Cruzes era asmático e morreu em decorrência da Covid-19
Reprodução/Facebook
O ortopedista Edson Yukinari Takeda, de 55 anos, cursou medicina na Universidade Estadual de Londrina, onde fez amigos. Um dos hospitais onde trabalhava era a Santa Casa de Suzano. Ficou conhecido pela dedicação, humanismo e profissionalismo. Asmático, não resistiu à infeção pelo novo coronavírus.
Maria Helena da Silva
Júlio César e mãe foram vítimas da Covid-19 em Ferraz de Vasconcelos
Viviane Cristina da SIlva Vital/ Arquivo Pessoal
A família conta que Maria Helena, de 69 anos, passou por três hospitais públicos, e em nenhum deles foi levantada a suspeita de coronavírus. A confirmação veio após atendimento com médico particular. Outros cinco membros da família também tiveram Covid-19 – um dos filhos de Maria, Júlio César, morreu no dia 6 de maio. “Minha mãe era tudo para mim. A gente era amiga, a gente era companheira”, disse Viviane, uma das filhas. Maria Helena deixou o marido, dois filhos e seis netos.
Cícero Romão de Souza
Cícero Romão era enfermeiro há mais de 20 anos.
Reprodução/Redes sociais.
Cícero Romão de Souza tinha 51 anos e era enfermeiro no Samu e na Santa Casa de Mogi das Cruzes. Já tinha tempo de trabalho suficiente para se aposentar, mas preferiu adiar para depois da pandemia e, assim, trabalhar ao lado dos amigos. Deixou duas filhas, uma delas em tratamento contra um câncer. Com giroflex e sirene ligados, profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e do Corpo de Bombeiros prestaram homenagens a Romão. Amigos da Santa Casa escreveram uma carta.
Fernando Miyake
Fernando Miyake, de 56 anos, era médico e morreu vítima da Covid-19, após 28 dias de internação.
Claudio Miyake/Arquivo Pessoal
O médico Fernando Miyake, de 56 anos, trabalhou até momentos antes de buscar atendimento já com sintomas preocupantes. Atendia como clínico geral em um hospital de Santo André (SP) e também coordenava o pronto-atendimento e ambulatório.
Dias antes da internação por causa da Covid-19, cuidou do irmão que estava com suspeita da doença e que, dias depois, descobriu que na verdade tinha contraído dengue. Ele era irmão do vereador mogiano Claudio Miyake.
Aurora Elena Zapata VillaLobos
Martin e Aurora nasceram no Chile, mas fixaram residência no Brasil
Arquivo Pessoal/Ricardo Zapata
Dona Aurora, de 80 anos, perdeu a luta para a Covid-19 quando estava internada em um leito ao lado do marido, Martin, em um hospital de Mogi das Cruzes, ambos com Covid-19. Ele conseguiu ser recuperar e teve alta 39 dias depois. Quando ele chegou em casa, disse que a alegria só seria completa se a esposa também estivesse lá. Aurora e o marido estavam casados há 58 anos. Os dois nasceram no Chile, mas escolheram o Brasil para morar na década de 70.
Maria Luiza Augusta
Maria Luiza Augusta era apaixonada pelo Carnaval e sempre desfilava
Arquivo Pessoal/Emily Carolina
Apaixonada por carnaval, Maria Luiza Augusta, de 77 anos, sempre desfilava como porta-bandeira e também tocava saxofone. Ela já havia desfilado por várias escolas de Mogi das Cruzes e também participado do carnaval no Rio de Janeiro.
O fato de ser uma mulher tão alegre, querida na cidade, com uma rica história ligada ao carnaval, tornou a rápida despedida ainda mais dolorosa para a família.
Durvalino da Silva
Durvalino da Silva, de 69 anos, foi a primeira vítima fatal de Covid-19 em Mogi.
Jeferson Tadeu Cruz/Arquivo Pessoal
Ainda no começo da pandemia, o eletricista Durvalino da Silva, de 69 anos, já estava com medo de pegar o trem para São Paulo para ir trabalhar. Dizia à esposa Zilda Balisa Cruz que tinha muita gente espirrando e sem educação. A mulher lembra da convivência e diz que ele era muito responsável, educado e “finíssimo”.
José Francisco de Moraes
Aposentado de Suzano que morreu com coronavírus tinha boa saúde e planejava churrasco para quando saísse do hospital, diz filho
Fernando Marçon de Moraes/Arquivo Pessoal
O aposentado José Francisco de Moraes, de 67 anos, levava uma vida saudável. Se alimentava bem, fazia exercícios. Casado, era pai de dois filhos e avô de uma menina. Na última conversa com o filho, já internado, falou sobre viagens e planejou um churrasco para quando tudo passasse.
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Veja histórias de pessoas que morreram pela Covid-19 no Alto Tietê
