Cidade de São Paulo teve 23% mais mortes até o fim de julho do que no mesmo período de 2019


Nas 30 primeiras semanas do ano, foram mais de 50 mil mortes de residentes da capital contra 41 mil no ano passado. Excesso de mortes ficou concentrado entre março e julho. A cidade de São Paulo, que registrou o primeiro caso confirmado de Covid-19, a primeira morte confirmada pela doença e ainda responde por cerca de uma em cada dez mortes confirmadas no Brasil, registrou 23% mais mortes nas 30 primeiras semanas de 2020 do que no mesmo período de 2019.
Os dados consideram as mortes de pessoas que residem na capital pela data em que elas ocorreram, e foram levantados pela produção da TV Globo a partir das informações do Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade (Pro-AIM), um braço da Secretaria Municipal da Saúde dedicado a investigar e contabilizar as mortes ocorridas na cidade.
Por causa do atraso entre o registro das mortes e a inclusão delas nas estatísticas oficiais, o levantamento leva em conta apenas o período que vai até 25 de julho, o fim da semana epidemiológica 30.
As semanas epidemiológicas são uma forma de dividir o ano em 52 semanas, sempre começando aos domingos e terminando aos sábados, para que se possa comparar o comportamento das doenças e da mortalidade em anos diferentes.
Gráfico mostra a variação de mortes na capital em 2018, 2019 e 2020
Arte
Mortes a mais começaram junto com a epidemia
Segundo o levantamento, até 25 de julho foram registradas 50.799 mortes de residentes do município. Em 2019, esse número foi de 41.226. Em 2018, foram 39.820 no período.
É comum que a cada ano existam pequenas alterações no total de mortes registradas em um local, principalmente para cima, já que a população também aumenta ano a ano. Mas uma epidemia pode provocar alterações drásticas. No caso da Covid-19, a análise evidencia como esse aumento de mortes muito acima do esperado ocorreu justamente após o aparecimento dos primeiros casos da doença.
Nas primeiras dez semanas do ano, que em 2020 vão até 7 de março, não houve variações relevantes no número de mortes em relação aos anos anteriores. A diferença foi de algumas centenas. Já entre as semanas 11 a 30, houve cerca de 10 mil mortes a mais neste ano (compare abaixo):
Variação nas mortes na capital de 2018 a 2020
Vítimas indiretas da epidemia
Além das mais de 10 mil mortes já confirmadas, existem pelo menos 5.650 mortes classificadas pela Prefeitura de São Paulo como “suspeitas” de Covid-19. A medida serve para evitar o contágio dos funcionários que vão lidar com o corpo da vítima. Mas é só com um diagnóstico positivo conclusivo que essas mortes entram para as estatísticas oficiais. Foi o que ocorreu na capital com uma vítima morta em 12 de março, que só foi oficialmente incorporada ao balanço do Ministério da Saúde no fim de junho.
Porém, boa parte das mortes suspeitas não chegarão a ser esclarecidas, um problema afeta não só as famílias das pessoas que de fato morreram de Covid-19, mas também os parentes de quem morreu por outras causas, e não conseguiram se despedir de forma adequada.
Essas são vítimas indiretas da pandemia, como a família de Fernando Pujol, um arquiteto que, em uma segunda-feira de abril, sofreu um infarto fulminante quando saía de casa para ir ao hospital. Ele tinha 36 anos, era casado e tinha filhas gêmeas de 13 anos. Com o início da quarentena, passou a trabalhar de casa e não apresentou sintomas de Covid-19.
Fernando Pujol com a esposa (à esquerda), a irmã, as duas filhas e a mãe
Arquivo pessoal/Tatiana Restrepo
Além disso, a esposa, Tatiana Restrepo, afirma que ele já sofria de pressão alta e tomava remédio para controlar a doença. “Ele disse que não estava se sentindo bem, dor no peito, suando frio. Decidimos ir para o hospital, mas ele enfartou no elevador”, relembra ela.
Como Pujol chegou sem sinais de vida ao hospital, os médicos decidiram coletar a amostra para o exame do novo coronavírus, que na época estava no pico da transmissão comunitária. Foi essa decisão que fez com que o atestado de óbito dele levasse “suspeita de Covid” entre as causas.
“O enterro foi como Covid, com caixão lacrado”, diz Tatiana. “Você não pode fazer um velório, não pode fazer uma oração… Ele era muito querido, um ótimo pai, um ótimo filho, um ótimo esposo. O mais difícil foi enterrar desse jeito, não poder abraçar.” Uma semana depois, ela retirou o resultado do exame no hospital. Veio negativo. Até hoje, porém, a certidão de óbito consta a suspeita, porque o cartório, segundo a família, cobra uma taxa de mais de R$ 100 para retificar o documento.
Mortes evitáveis
“Não há discussão que houve um excesso de mortalidade”, explicou ao SP1 Márcia Castro, professora de demografia na Escola de Saúde da Universidade Harvard. A especialista, que também participa do Observatório Covid-19 BR, um grupo interdisciplinar de pesquisadores e pesquisadoras de universidades do Brasil e de vários países, alerta que esse excesso “deve ser ainda maior”, considerando o atraso da notificação das mortes.
“A gente vai levar talvez um ano ou um pouquinho mais para pegar esses dados completos, analisar por causa de morte, e tentar entender qual foi a carga, além da Covid, de outras doenças na população.”
O que ela diz, porém, é que boa parte das mortes a mais ocorridas em 2020 poderiam ter sido evitadas, mesmo em tempos de epidemia, pelo aproveitamento adequado do Sistema Único de Saúde (SUS). é uma das principais vantagens do Brasil em relação a outros países, principalmente pelos programas comunitários de atenção básica.
A professora Márcia Castro ressalta que as mortes seguem ocorrendo e que a epidemia está longe do fim. “A mensagem otimista é que a gente tem tempo para mudar isso. A gente tem tempo para fazer com que essas barrinhas no gráfico comecem a diminuir e a gente reduza esse excesso de mortalidade através de uma resposta mais efetiva e salve vidas. Porque a gente já perdeu vidas de monte.”
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By Midia ABC

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