Iniciativa brasileira reúne centenas de pesquisadores do mundo e torna públicos dados sobre biodiversidade


Estudo recente reuniu mais de 600 cientistas e expôs informações sobre mamíferos exóticos. De pequenos roedores e lebres a grandes roedores e javalis, a pesquisa mais recente expôs dados sobre os mamíferos exóticos
Neotropical Alien Mammals/Acervo
Evitar o avanço de ameaças à biodiversidade, hoje, depende de algo primordial: informação. Dados disponíveis e acessíveis são capazes de antecipar riscos e reduzir os danos, contribuindo com a geração de políticas públicas. Pensando na dificuldade de obter essas informações, os professores Mauro Galetti (atualmente na Universidade de Miami) e Milton Ribeiro (do Departamento Biodiversidade da UNESP Rio Claro) decidiram unir as forças necessárias.
Os pesquisadores lideram os projetos denominados Atlantic Series, com informações sobre a Mata Atlântica, e Neotropical Series, com dados sobre a área que compreende desde o Sul dos EUA até o Sul da Argentina. Através deles, uma sequência de artigos torna público e gratuito o acesso a um volume imenso de dados sobre a fauna e flora dessas regiões. Na produção mais recente elaborada, a ocupação de mamíferos exóticos foi explorada por um time composto por 642 pesquisadores do mundo todo.
Sagui-da-serra-escuro é um primata endêmico da Mata Atlântica do sudeste do Brasil que sofre com ameaças de espécies introduzidas
Terra da Gente
A ideia da iniciativa se iniciou a partir de um choque. “Coordenei um projeto com a participação de pesquisadores brasileiros e da Finlândia. Em uma reunião internacional, nós fomos questionados: ‘vocês têm bastante informação sobre a Mata Atlântica?’. A resposta: ‘sim, temos muita’. Então perguntaram: ‘onde estão essas informações?’”, relembra Milton Ribeiro.
A situação fez perceber que estar envolto pela Mata Atlântica e próximo dos principais centros de pesquisa e universidades formadoras do Brasil não era o suficiente para alimentar a cultura de tornar os dados efetivamente públicos. No combate à falta de informação, os pesquisadores entraram em contato com estudiosos do mundo todo. Convidaram os especialistas a compartilharem dados em troca de se tornarem autores de artigos publicados com eles que seriam dispostos em plataformas de amplo acesso.
Artigo mais recente publicado pelo projeto mapeou áreas de ocorrência de espécies de mamíferos exóticos e invasores
Neotropical Alien Mammals/Acervo
De informações esquecidas nas cadernetas de campo a registros que, anteriormente, os pesquisadores consideravam não ter mais utilidade, o “garimpo” dos fatos surtiu efeito. “Percebemos que muita gente com foco em um grupo de pesquisa tinha dados de outros grupos e passou a contribuir. Informações que estavam fadadas a se perdem na história, voltam a acrescentar com esse processo”, vibra Milton Ribeiro.
Mamíferos exóticos e invasores
Lebrão ou lebre-europeia é considerada em algumas regiões uma “praga agrícola”
Gustavo Alves de Oliveira/Arquivo Pessoal
Javalis, lebres, espécies de saguis e até de cães e gatos podem ser apontados como exóticos no Brasil. A definição garante que esses sejam animais que não têm origem no local onde estão inseridos atualmente e tenham sido introduzidos de forma deliberada ou acidental pelo ser humano, com potencial de se tornarem invasores.
“Ele passa a ser invasor quando estabelece uma população e se perpetua no ambiente. Uma espécie doméstica é classificada como exótica e invasora quando ainda recebe assistência humana, mas habita um ambiente natural, onde causa pisoteio de solo e córregos (como atua o gado) ou predação de animais nativos (como fazem cachorros e gatos)”, explica a ecóloga especialista mamíferos Clarissa Alves da Rosa, que liderou o estudo.
Confira nas imagens a distribuição de gatos, cães e até algumas espécies de gado que se comportam como exóticas
Neotropical Alien Mammals/Acervo
Levados aos países com o objetivo de se tornarem parte do mercado de “pets”, como pequenos primatas, ou mesmo para fins de caça, como javalis, lebres e veados, os exóticos passam a se alimentar das espécies nativas, competir com elas, transmitir doenças ou até exterminar cultivos agrícolas. E essa realidade não é exclusiva do Brasil: Austrália, Nova Zelândia e Europa ilustram parte do problema também.
“A diferença é que eles investem minimamente no manejo de espécies invasoras e nós (América do Sul e Latina) negligenciamos muito esse problema. Essa questão das invasões só é resolvida se for trabalhada em conjunto com a sociedade, inclusive para evitar novas introduções”, destaca a ecóloga.
Saguis-de-tufos-pretos foram levados a outros biomas pelo tráfico de animais e hoje ameaçam espécies nativas
Arquivo TG
No artigo produzido, 77 espécies foram registradas como exóticas na região Neotropical e a presença massiva de cachorros e gatos domésticos em ambientes naturais espantou os pesquisadores. Mas boas novas também acompanharam o estudo. É o que destaca o biólogo doutorando da Universidade Federal de Goiás (UFG) Bruno Ribeiro, também líder do estudo: “a gente ficou bastante surpreso e alegre de ter obtido tantos dados e de tantos pesquisadores ao redor do mundo. Ao todo, foram mais de 70 mil registros”.
Acervo contém informações obtidas pela captura de câmeras, visualizações, amostragens fecais e até entrevistas que foram revisadas pela equipe, especialmente para obter a identificação correta da espécie e a localização geográfica
Javaporco é uma espécie surgiu a partir do cruzamento do javali com o porco doméstico que destrói campos e florestas
Terra da Gente
Ainda segundo ele, materiais assim têm a capacidade de transformar realidades. “Eu vejo dois potenciais principais: oferecer oportunidade para pesquisadores que não estão publicando artigos de terem um reconhecimento e a chance de trazer de forma pública e livre esses dados. Quando a gente trata do tema invasão, o tempo é fundamental. É muito mais fácil, simples e barato controlar uma invasão no início e, para isso, informação é essencial”, comenta.
Um outro projeto pretende acrescentar ainda mais sobre a realidade das espécies nativas. Vestígios e imagens de caçadores em câmeras fotográficas e dados sobre a ação de cães serão compilados em um novo artigo que mostrará mais uma origem de ameaças. “Acho que, quando juntarmos essas pesquisas, talvez não tenha no planeta um documento tão amplo sobre os impactos negativos à biodiversidade causados pela combinação de animais exóticos com a caça”, define Milton Ribeiro. O pesquisador também aponta artigos futuros relacionados a peixes de águas tropicais, câmeras trap na Amazônia, árvores da Mata Atlântica e até formigas.
Eu tenho certeza que essas informações já estão e vão continuar contribuindo muito para repensar políticas públicas para a conservação de biodiversidade, porque basicamente a informação está, de verdade, pública
Ameaça do javaporco avança pelo Brasil destruindo lavouras e espantando animais
Saguis comuns em áreas urbanas põem em risco primatas nativos do sudeste
Lebrão: espécie introduzida de apetite voraz ameaça espécies nativas do Brasil

By Midia ABC

Veja Também!