
Dados do Governo do Estado de São Paulo de sexta-feira (28) apontam que a taxa de letalidade entre pessoas pretas em Piracicaba é de 4,4%, enquanto que entre brancos é de 1,5%. A taxa de letalidade para pacientes com Covid-19 em Piracicaba (SP) é quase três vezes maior entre pessoas negras do que entre pessoas brancas. Os dados do Governo do Estado de São Paulo divulgados na sexta-feira (28) mostram que 4,4% dos negros que foram diagnosticados com o vírus morreram, enquanto para brancos, o percentual é de 1,5%.
Os dados ainda mostram que os negros são 4,89% do total de infectados com a Covid, enquanto os brancos são 79,3%. Contudo, em relação ao total de óbitos, o primeiro grupo representa 13,67%, ante o segundo que totaliza 74,8%.
O filósofo e doutor em história e filosofia da educação, Antônio Filogênio de Paula Júnior, diz que esses dados refletem uma “distância social” entre a população negra e não negra, que resulta em dificuldade de acesso ais recursos básicos, incluindo os da área de saúde.
“É um campo muito vasto de coisas que precisam ser pensadas e quando chega uma pandemia elas aparecem com dados mais alarmantes em relação aos óbitos e mesmo a um avanço mais difícil, mais doloroso da doença, assim como a recuperação, para aqueles que conseguem se recuperar.”
Antônio Filogênio de Paula Júnior, filósofo e doutor em história e filosofia da educação
Arquivo pessoal
De acordo com o filósofo, o impacto da Covid-19 na comunidade negra é porque ela está “historicamente mais exposta às deficiências de um regime, de uma organização social, que não lhe deu a devida atenção durante esse tempo.”
“É uma crise que revela outras pandemias. A pandemia da Covid revela outras pandemias que nós vivemos há muito tempo.”
Atendimento
Para a estudante de direito Ingrid Lopes, estagiária e integrante do Coletivo Beleza Preta, as estatísticas revelam a realidade que as pessoas negras vivem, além de ressaltar que a questão racial anda junto com a questão social.
“Apesar de a gente ter entrado em quarentena muito cedo, os serviços que precisam de mão de obra maior não entraram. As empregadas domésticas, os serviços gerais, e a gente sabe que a maioria dessas pessoas que trabalham nesses empregos são pessoas pretas, não entraram”, avalia.
Ingrid Lopes, estudante de direito, estagiária e integrante do Coletivo Beleza Preta
Arquivo pessoal
Outra questão que é evidenciada pelos dados, segundo Ingrid, é sobre a possibilidade de isolamento quando uma pessoa negra e de baixa renda é diagnosticada com Covid-19. “Como você fica isolado em casa pequena? Não tem como. Às vezes dorme todo mundo no mesmo quarto.”
“Você fala ‘lavem as mãos’, mas ‘pô’ [sic], como eu vou lavar a mão se eu não tenho nem água? Sendo que a água nem chega aqui? ‘Vamos fazer isolamento social’, mas quem faz isolamento social? Beleza, você faz o home office e continua ganhando. Se uma diarista não for trabalhar, ela não vai continuar ganhando. Alguém vai dar esse dinheiro? Os patrões não vão dar.”
Uma terceira situação mencionada por Ingrid é sobre o atendimento dentro das unidades de saúde. “Tem essa questão que preto é mais forte, que preto pode ficar ali segurando a dor, segurando o que está acontecendo”, lembra. Segundo ela, isso é fruto do racismo institucional, em que os trabalhadores da saúde reproduzem dentro da instituição o racismo que é visto na sociedade.
Solidariedade
Júnior também falou sobre as comunidades pelo Brasil que se uniram no início da pandemia para arrecadar alimentos e outros recursos para os que perderam renda por conta da pandemia.
“Elas estão dando uma demonstração forte, muito séria e comprometida de solidariedade, de envolvimento social para uma sociedade mais justa, verdadeiramente mais humana. Não se pode estar bem se o outro está mal. Se o outro não tem acesso.”
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