Pesquisadores descobrem que ninhos de aves em prédios são mais quentes e favorecem a incubação dos ovos


Sabiá-barranco passa 7% menos tempo por dia no cuidado com os filhotes nessas circunstâncias. Pesquisadores descobrem dados curiosos sobre ninhos feitos em áreas urbanas
Poder visualizar um ninho pela janela é sempre um privilégio, mas se ele tiver sido feito em prédios e estruturas humanas, além de admirar o desenvolvimento da vida, você terá a chance de apreciar a inteligência que guia a natureza. Pesquisadores da UNESP de Rio Claro, da Universidade Federal de São Carlos e da Universidad Nacional del Sur, na Argentina, descobriram que esses ambientes podem apresentar vantagens aos animais e, por isso, modificar seus comportamentos.
Ao gastarem menos tempo aquecendo os ovos, as aves podem investir esses momentos na alimentação e defesa dos filhotes; pesquisadores buscam entender essa dinâmica
Augusto Florisvaldo Batisteli/Acervo Pessoal
Os dados publicados recentemente derivam de estudos que já ocorrem há quase 10 anos. Através da instalação de dispositivos que medem a temperatura dos ninhos e do ambiente ao redor e da análise de quase 200 horas de observação do comportamento dessas aves, os pesquisadores constataram que os ninhos em prédios são, em média, seis graus mais quentes que os encontrados em árvores, e por conta disso, as fêmeas passam 7% menos tempo por dia incubando os ovos, o que resulta em uma hora por dia a menos de esforço na incubação.
Para a análise, sabiás adultos eram capturados e recebiam anéis coloridos cedidos pelo entro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres; a mesma ave foi observada durante várias temporadas reprodutivas
Augusto Florisvaldo Batisteli/Acervo Pessoal
O biólogo Augusto Florisvaldo Batisteli sempre esteve intrigado em entender o motivo de as aves construírem seus ninhos em estruturas artificiais, mesmo quando havia vegetação nas proximidades. Sendo um dos membros do estudo, agora explica: “Quando construídos na vegetação, os ninhos estão sujeitos a um microclima com bastante umidade, além de estarem mais expostos ao vento. Por outro lado, os ninhos construídos nos prédios geralmente estão apoiados e cercados de materiais como concreto e metal, que ajudam a manter a temperatura interna mais alta”, define.
O exemplo estudado para validar tais dados foi o do sabiá-barranco, uma ave que ocorre em ambientes preservados e urbanos e constrói ninhos tanto em árvores quanto em prédios. Mesmo assim, as pesquisas podem ter um impacto ainda mais abrangente. “Apesar de ter adotado essa espécie como modelo, é razoável supor que o mesmo resultado se aplique a outras espécies de aves que também fazem ninhos em construções humanas”, ressalta o biólogo.
Avoante, pombão e sanhaçu-cizento estão entre as espécies que costumam fazer ninhos em prédios
Augusto Florisvaldo Batisteli/Acervo Pessoal
Se a engenharia garante uma barreira que mantém a temperatura mais alta, é importante destacar que essa vantagem para a construção dos ninhos apontada pelo estudo se aplica a um determinado grupo de espécies mais tolerantes à urbanização. Há aves que não conseguem encontrar alimento ou sequer suportam as condições das cidades, tendo suas vidas totalmente ameaçadas pelo fim das áreas nativas.
Com o auxílio dos pesquisadores Leonardo Beraldo de Souza, Isadora Zavan Santieff e Talita Pereira Soares, além de ajudantes nos trabalhos de campo, Augusto Batisteli agora pretende investigar outros impactos dos “ninhos urbanos”. “Queremos entender quais as consequências para o metabolismo dos filhotes, se há alterações em outros aspectos do comportamento dos pais e se o hábito de construir os ninhos nos prédios é hereditário. Já sabemos, por exemplo, que isso ocorre com determinadas fêmeas que são mais ousadas que as demais”, conclui.
Checagem dos ninhos foi feita com a ajuda de um espelho; pesquisadores acreditavam que os ninhos em prédios apresentassem uma maior sobrevivência dos filhotes
Augusto Florisvaldo Batisteli/Acervo Pessoal
Ao avistar um ninho em prédios, o melhor a fazer é não perturbar! “Observem e acompanhem o trabalho árduo dos pais em todas as etapas da reprodução. Também vale a pena registrar os comportamentos com fotos e vídeos, bem como anotar as datas de cada etapa do ciclo reprodutivo”, define Augusto Batisteli
Diversos estágios da reprodução foram observados pelos pesquisadores para avaliar a forma de incubação dos ovos
Augusto Florisvaldo Batisteli/Acervo Pessoal

By Midia ABC

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