Fogo no Pantanal: impacto na população de tamanduás-bandeira preocupa pesquisadores


Indivíduos resgatados raramente resistem às queimaduras e à desidratação; período reprodutivo já foi afetado; perspectiva no pós-fogo também preocupa. Os animais mortos e feridos ainda não foram contabilizados
Arquivo Instituto Tamanduá
Há mais de seis meses o Pantanal Norte e o Pantanal Sul tem sofrido com uma onda de incêndios. Muita gente tem doado tempo e recursos para ajudar equipes que estão em campo tentando conter o fogo. No entanto, as expectativas não são positivas para grande parte das espécies.
O bioma, que abriga variada fauna brasileira, é casa para um dos maiores mamíferos terrestres do Brasil: o tamanduá-bandeira. Ameaçado de extinção, vítima da perda de habitat, o animal tem papel importante na cadeia evolutiva, pois controla a população de formigas e cupins e é presa para outros animais de grande porte.
Bombeiros e brigadistas combatem fogo no Pantanal (MS)
Chico Ribeiro/ Governo de Mato Grosso do Sul
“Uma série de questões nos preocupam em relação aos tamanduás nessas regiões. Primeiro porque a temperatura suportada por eles, diferente de outros mamíferos, é de 33 graus. Ou seja, temperaturas altas provocadas pelo fogo impactam demais o metabolismo deles”, explica Flávia Miranda, diretora do Instituto Tamanduá, que há 15 anos luta pela conservação dos tamanduás-bandeira.
“Além disso, essa é a época reprodutiva dos tamanduás, que só geram um filhote por ano. Após o nascimento os pais ficam responsáveis pela cria, que se torna completamente independente depois de um ano. Ou seja, todo esse processo foi interrompido pelas queimadas”, diz.
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Tamanduá com ferimentos nas patas e outros danos causados pelo fogo foi encaminhado para o tratamento da equipe de voluntários no Pantanal
Associação Mata Ciliar/Divulgação
Emergência
Flávia explica que agora o trabalho principal é tentar conter os focos de queimada e cuidar dos animais que sobreviveram. “Estamos recrutando fundos para investir em alimentação para várias espécies, auxiliando na compra de frutas, verduras e na criação de bebedouros artificiais. Além disso, temos equipes atuando com o resgate geral dos animais e outras trabalhando com a catalogação de indivíduos queimados e mortos”.
Ainda é cedo para dizer o tamanho do estrago feito na população de tamanduás-bandeira, mas para a bióloga, o futuro não traz perspectivas muito boas. “O grande problema com essa espécie é que os poucos que são resgatados com vida sofrem muito no processo de reabilitação. A queimadura é um dos maiores problemas, seguido pela desidratação”, explica Flávia, que destaca ainda a dificuldade em mantê-los em cativeiro.
Tamanduá-bandeira 08
Eulâmpio Vianna Neto
“É difícil, principalmente por conta da alimentação. Não é tão simples ofertar formigas e cupins. Agora, nesse processo emergencial, estamos nos baseando em um livro sobre manejo de tamanduás em cativeiro, para tentarmos salvar os que foram resgatados”, completa.
Comum em todos os biomas brasileiros, o tamanduá-bandeira é classificado como “Vulnerável” na lista de espécies ameaçadas, categoria cujos animais enfrentam alto risco de extinção na natureza. Fragmentação do habitat, desmatamento, incêndio, agricultura, pecuária e aumento da matriz rodoviária são as principais ameaças à espécie, que também sofre com a caça, perseguição, envenenamento e enfermidades infecciosas reprodutivas
Os indivíduos resgatados nem sempre suportam o processo de reabilitação
Arquivo Instituto Tamanduá
Pós-fogo
A situação caótica de lidar com as queimadas preocupa, no entanto, o cenário que os pesquisadores e a comunidade local irá encontrar depois do incêndio é ainda mais aterrorizante. “O pós-fogo é uma etapa tão ruim quanto a atual, pois as espécies que sobreviverem não terão oferta de alimento e, por isso, haverá quebra de cadeia com aumento da predação. A imunidade desses animais também cai bastante, ou seja, teremos indivíduos magros e doentes que precisarão de cuidados. Vamos ter uma situação muito grave e tão desesperadora quanto ver os animais sendo queimados”, detalha a especialista, que lamenta ver tantos anos de pesquisas devastados pelas chamas.
“As pesquisas do Instituto Tamanduá começaram no Pantanal Norte, em várias microrregiões com importância única para a biodiversidade local. Foram mais de seis anos atuando no Sesc Pantanal, que hoje foi praticamente todo devastado. Ainda não conseguimos contabilizar, mas com certeza perdemos muitos indivíduos da espécie na região”, diz.
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Interrompidas inicialmente pela pandemia, as pesquisas na região serão totalmente formatadas após as queimadas
Alexandre Sá/TG
Os estudos e monitoramento dos tamanduás-bandeira também ocorrem no Pantanal Sul, em Aquidauana, onde o fogo ainda não chegou. “Formamos uma força-tarefa para analisar os focos de queimada na região e nos preparar para essa situação. A partir de agora mudaremos totalmente a estratégia de pesquisa, que já tinha sido afetada também pela pandemia: o foco é entender como esses animais se comportam em situações assim, estudar a ecologia, biologia, genética e saúde dos indivíduos para, então, criar estratégias para catástrofes como essa”, completa a especialista, que destaca ainda outras espécies atendidas pelo projeto e fortemente afetadas pelo fogo.
“Além do bandeira, nos preocupamos demais com os tamanduás-mirim, que são afetados pelas árvores queimadas, e com os tatus, que entram nas tocas e morrem cozidos”, finaliza.
Neste momento é importante evitar a ida até às regiões atingidas; auxílio pode vir de outras maneiras
Reprodução/Globo
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Ajuda consciente
Quando questionada sobre a melhor maneira de ajudar grupos que estão na linha de frente do combate ao fogo, Flávia ressalta a importância de respeitar a dinâmica local. “Toda ajuda é bem-vinda, mas nem sempre o ideal é se deslocar até lá. A região já está com poucos recursos, incapaz de receber mais gente. Precisamos entender que é possível ajudar muito, mesmo sem sair de casa”, reforça.
“Quem puder auxiliar com recursos financeiros, há uma série de iniciativas e vaquinhas online que ajudam muito na luta contra as queimadas. Mas, ainda mais importante do que isso, é não acreditar e nem compartilhar fake news. Nós dedicamos nossas vidas a esses lugares e à biodiversidade, não podemos deixar que mentiras tirem o valor da nossa luta”, completa.
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By Midia ABC

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