É quase impossível encontrar alguém que, ao menos uma vez, não tenha escutado sobre Inteligência Artificial (IA), mesmo que a compreensão sobre o tema ainda seja superficial. Profissionais de diversas áreas enfrentam as incertezas trazidas por essas tecnologias, questionando até onde a IA pode impactar suas funções. No setor de saúde, essa discussão já conta com diretrizes estabelecidas e aplicações práticas bem definidas.
A tecnologia da IA não é uma novidade absoluta para os médicos, pois há alguns anos vem sendo debatida dentro da categoria. Porém, agora eles têm um guia claro para sua utilização na medicina. A Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que regulamenta o emprego da IA nas práticas médicas entrará em vigor em 26 de agosto de 2026.
É importante esclarecer aos pacientes que a presença da IA não significa a substituição do médico por máquinas. O CFM enfatiza em seus primeiros parágrafos que a IA será utilizada apenas como uma ferramenta auxiliar, mantendo o médico como responsável final pelas decisões clínicas, diagnósticas e terapêuticas. Mas quais são as mudanças? A medicina terá a chance de aprimorar suas práticas e se lapidar.
Considerando que a medicina lida diretamente com a saúde e a vida das pessoas, seu impacto no cotidiano é inegável. Embora muitas transformações ocorram longe dos olhos leigos, os cuidados com a saúde estão sempre evoluindo paralelamente às inovações tecnológicas. E atualmente, a IA é o foco dessa evolução.
Aprimoramento das rotinas
Um exemplo prático da presença da IA nas consultas médicas é a melhoria na interação entre médico e paciente. Graças à tecnologia, é possível deixar de lado o teclado durante as consultas e concentrar-se exclusivamente no atendimento ao paciente, utilizando dispositivos que transcrevem automaticamente as conversas.
Além disso, a IA promete oferecer diagnósticos mais precisos e prever eventos futuros, como a possibilidade de um tumor, por exemplo. Outro benefício é a capacidade de verificar informações antes de tomar decisões importantes.
Informações disponíveis em bases de dados científicas podem ser acessadas rapidamente e com segurança através das facilidades proporcionadas pela Inteligência Artificial. Esses tópicos foram discutidos em maio deste ano durante um evento aberto ao público, promovido pela Associação Médica do Rio Grande do Sul (Amrigs), juntamente com outras entidades médicas locais.
O evento ocorreu no Auditório do Complexo Hospitalar Unimed Vale do Sinos, em Novo Hamburgo, reunindo médicos e outros profissionais que puderam explorar como essas tecnologias estão sendo integradas ao cotidiano profissional. As possibilidades oferecidas pela IA são vastas e promissoras.
Resolução do Cremers e debates no Rio Grande do Sul
Antes mesmo da divulgação da Resolução do CFM sobre o uso da Inteligência Artificial na medicina, esse tema já estava sendo debatido entre líderes médicos no Rio Grande do Sul. O Conselho Regional de Medicina do Estado (Cremers) havia publicado uma resolução sobre essa questão em maio do ano anterior. Tanto o documento do Cremers quanto o do CFM compartilham semelhanças em relação aos métodos e responsabilidades envolvendo a interação da IA na prática médica.
Entretanto, a norma federal abrange mais questões regulatórias; por exemplo, apresenta critérios para classificar sistemas de IA conforme seu nível de risco (baixo, médio, alto e inaceitável). Além disso, ela determina que os pacientes devem ser informados quando a IA for utilizada como apoio significativo no cuidado médico e proíbe expressamente delegar à IA as comunicações relativas a diagnósticos ou decisões terapêuticas.
Na época da publicação da resolução federal, o Cremers anunciou que ela foi aprovada pelo colegiado do conselho após várias discussões realizadas ao longo de 2024.
O conselho também destacou que as discussões sobre o uso da IA incluíram um encontro recente em novembro daquele ano com especialistas em tecnologia e representantes de diversas instituições públicas e privadas envolvidas na saúde.
Amplia a previsibilidade no rastreio do câncer de mama
Já existem iniciativas práticas envolvendo o uso da Inteligência Artificial no diagnóstico precoce do câncer de mama. O rastreamento dessa condição é essencial para a saúde pública; segundo projeções do Instituto Nacional do Câncer (Inca), entre 2026 e 2028 o Brasil deve registrar cerca de 78.610 novos casos anuais desse tipo de câncer.
Esses números reforçam que o câncer de mama é o mais frequente entre mulheres após os casos não melanoma de pele. Especialistas afirmam que detectar tumores precocemente aumenta significativamente as chances de tratamento eficaz. Por essa razão, projetos têm sido desenvolvidos utilizando IA para otimizar o rastreio dessa doença.
Um exemplo prático vem do Grupo Fleury em São Paulo. Os testes com ferramentas baseadas em IA iniciaram em 2024 e desde então passaram a fazer parte dos exames de mamografia realizados pela instituição. Até o início deste ano, mais de 21 mil exames já haviam sido analisados com auxílio dessa tecnologia avançada.
“O que muda é a qualidade da avaliação; agora temos um nível adicional de controle”, explica Bruno Aragão Rocha, responsável pela área médica dos Hospitais e Inovação do Grupo Fleury. “Combinamos análise humana com algoritmos inteligentes; se houver divergências entre os resultados humanos e os gerados pela máquina, realizamos uma revisão imediata.”
Três ferramentas comerciais foram testadas durante essa pesquisa usando um banco de dados contendo 1.511 mamografias anônimas — incluindo 565 casos confirmados de câncer por biópsia — permitindo aos pesquisadores avaliar como diferentes recursos tecnológicos atuam juntos na identificação precoce da doença através dos algoritmos de deep learning.
Rocha acredita que juntar conhecimentos médicos com inteligência artificial resulta em diagnósticos mais precisos: “Há evidências científicas indicando que quando combinamos análise humana com inteligência artificial obtemos um desempenho superior nos diagnósticos”, afirma ele. A vantagem reside na capacidade aumentada para identificar lesões nas mamografias.
“Um erro comum ocorre quando se considera uma área indicada como suspeita pela IA como sendo benigno pelo médico; isso pode levar ao aumento dos falsos positivos — ou seja, mais biópsias desnecessárias — mas reduz significativamente os falsos negativos”, analisa Rocha sobre os impactos práticos dessa combinação tecnológica.
Vale destacar que todas as novas tecnologias utilizadas são validadas pelos órgãos reguladores competentes; esses softwares possuem registros na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e passam por rigorosos testes antes de serem implementados na prática clínica.
A Anvisa informou à reportagem que atualmente há dez softwares reconhecidos como dispositivos médicos (SaMD) utilizando inteligência artificial especificamente para mamografias regularizados junto à agência desde 2017.
Experiência em radiologia também tem o impacto da IA
Os exames voltados para rastreio do câncer mamário são parte fundamental das rotinas na radiologia. De acordo com Bruno Aragão Rocha do Grupo Fleury, esses avanços têm gerado impactos positivos no dia-a-dia dos radiologistas.
“Contrariando expectativas comuns sobre resistência à adoção da IA entre radiologistas devido ao medo da substituição profissional pela máquina”, Rocha afirma que “essa ferramenta tem colaborado significativamente para aumentar nossa segurança no trabalho e reduzir níveis elevados de estresse psicológico.”
Ele ainda observa um aumento significativo na experiência profissional (“employee experience”) devido à introdução das ferramentas baseadas em inteligência artificial: “Isso torna o trabalho mais seguro e diminui ansiedades relacionadas ao erro,” conclui Rocha.
A regulamentação proposta pelo CFM deixa claro que é imprescindível informar ao paciente sempre que houver uso relevante dessas ferramentas tecnológicas durante os laudos médicos; além disso, reafirma-se que essa tecnologia deve ser utilizada apenas como suporte auxiliar nas análises diagnósticas.
Nos últimos dez anos congressos internacionais têm discutido intensamente sobre AI na radiologia; no Brasil empresas vêm introduzindo produtos relacionados há pelo menos quatro anos. Para Henrique Guerra , chefe do Serviço de Radiologia Diagnóstico por Imagem no Hospital Moinhos de Vento , essa integração tecnológica é vista como algo natural nos processos médicos atuais.
Apesar disso ele expressa cautela quanto às expectativas relacionadas à implementação prática dessa tecnologia: “Hoje existem algumas aplicações efetivas mas acredito que ainda estamos esperando por uma verdadeira revolução digital nesta área; estou certo disso.”
Guerra acredita também que as ferramentas disponíveis atualmente apresentam avanços notáveis mas não suficiente para substituir plenamente um radiologista experiente: “Embora existam soluções precisas para detecção existem limitações claras comparadas à capacidade humana.” Ele argumenta ainda sobre potencialidades desse recurso: “Essa tecnologia pode ser muito útil onde há grande volume diário mas falta experiência profissional.”
No entanto ressalta também desafios operacionais envolvidos: “Muitas vezes requer integrações complexas com outros sistemas já existentes; otimizar essas interações demanda múltiplos setores trabalhando juntos.”
Desafio ao lidar com previsões diagnósticas
Os resultados obtidos nos testes das ferramentas baseadas em inteligência artificial demonstram sua aptidão para prever lesões antes mesmo delas serem visíveis aos olhos humanos durante análises clínicas convencionais.
Em Porto Alegre foi conduzido um estudo validando essas tecnologias através parceria entre Santa Casa local junto à Empresa Pública Tecnologia Informação Comunicação (Procempa). Essa pesquisa envolveu colaboração com Universidade Federal Ciências Saúde Porto Alegre (UFCSPA) apoiada pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). Foram avaliados mil exames realizados entre 2019 e 2024 resultando alta precisão na identificação mulheres propensas ao desenvolvimento dessa neoplasia maligna .
“Toda nova ferramenta precisa ser validada dentro contexto onde será utilizada pois podem existir variações populacionais,” destaca Manuela Zereu oncologista atuante Santa Casa .
“Estamos tentando explorar aplicação prática pois validações feitas tendem utilizar dados retrospectivos baseados apenas pacientes diagnosticados previamente,” complementa Manuela sobre necessidade estudos prospectivos futuros .
“Ainda não está claro quais seriam intervenções adequadas caso identificássemos riscos antecipadamente ,” reflete ela enfatizando necessidade maior planejamento clínico .
Nivelamento das habilidades práticas humanas
A ampliação das previsões oferecidas pela Inteligência Artificial não representa uma inovação propriamente dita na medicina porém tem potencial elevado segundo cirurgião oncológico Otávio Cunha : “Não surpreende ter necessidade interpretar achados clínicos antes confirmação caso real – essa sempre foi nossa função.”
Além disso acredita Cunha , progresso traz maior acesso informações população geral tratamentos doenças condutas médicas mas demanda educação melhorada usuários finais ; “Isso exige conhecimento profundo saúde assim quanto busca profissionais qualificados .”
Para ele AI pode atuar nivelador saber : “Historicamente existiu desnível entre conhecimentos pacientes versus médicos.” Ou seja , esse novo cenário proporciona acesso equitativo informação técnica disponível todos profissionais .
Cunha menciona diferenciais humanos essenciais comportamentais – relações interpessoais habilidades emocionais fundamentais constituiriam maior impacto assistencial . “Tecnologia serviria ferramenta facilitadora melhores relações humanas.” conclui .
Em dez pontos principais destaque Resolução CFM sobre uso Inteligência Artificial medicina*
Resolução Nº2454 datada 11 fevereiro 2026 constitui marco regulatório inicial CFM focado exclusivamente utilização inteligências artificiais processo clínico visando garantir autonomia profissional segurança paciente ética médica preservadas .
- Ponto Um: Finalidade normativa:
- – Estabelecimento regras pesquisa desenvolvimento sistemas AI ;
– Aplicações clínicas ;
– Governança institucional ;
– Auditorias monitoramento contínuo ;
– Capacitação permanente profissionais.
– Responsabilidade ética associada utilização tecnologia . - Ponto Dois: A AI enquanto suporte:
- – Enfatiza caráter auxiliar podendo contribuir decisões clínicas diagnósticos planejamentos terapêuticos gestão saúde pesquisas educacionais.
– Não substitui prerrogativas julgamento clínico exclusivas médicas. - Ponto Três: Decisão final mantida médica:
- – Um princípio central norma preconiza:
– Decisão clínica final pertence sempre ao médico;
– Responsabilidade ética permanece exclusivamente médica;
– Transferências responsabilidade algoritmos proibidas . - Ponto Quatro: Proibição comunicação autônoma:
- – Normativa proíbe execução autônoma:
– Comunicações diagnósticos prognósticos indicações tratamentos transmissões decisões médicas devem incluir participação direta profissional médico . - Ponto Cinco: Classificação risco sistemas AI:
- – Classificações realizadas conforme impacto potencial paciente.
Quanto maior risco exigirá validações supervisões documentações controles institucionais rigorosos . - Ponto Seis: Governança institucional necessária :
- – Serviços empregadores AI devem implementar mecanismos governança incluindo:
Políticas uso avaliações riscos auditorias rastreabilidade supervisão contínua. - Ponto Sete : Transparência obrigatória:
- – Profissional deve ter clareza finalidade ferramenta limitações riscos evidências científicas grau confiabilidade sistema utilizado .
Decisões médicas não podem depender “caixas pretas” obscuras. - Ponto Oito : Validação científica compulsória :
- – Exigências incluem validação técnica respaldo científico desempenho compatível segurança adequada.
- Ponto Nove : Proteção dados pessoais :
- – Observar princípios sigilo médico confidencialidade proteção dados respeitando Lei Geral Proteção Dados LGPD.
li > - Ponto Dez : Direitos profissionais garantidos : strong > li >
- – Uso AI permitido apoio recebimento informações claras funcionamento limites riscos recusa recomendações incompatíveis avaliações clínicas pessoais.
li >*Resumo pontos destacados Resolução CFM elaborado sistema Inteligência Artificial Contudo entrevistas redação final reportagem realizada sem auxílio inteligência artificial.*
- – Uso AI permitido apoio recebimento informações claras funcionamento limites riscos recusa recomendações incompatíveis avaliações clínicas pessoais.
