
Conhecida popularmente como bandeirinha, espécie fotografada é considerada uma das mais bonitas do Brasil. Registros foram feitos na RPPN Estação Veracel. Clique especial mostra o beija-flor bandeirinha com as asas abertas
Jaílson Souza
Quanto tempo de dedicação é necessário para conseguir um clique especial? Para Jaílson Souza, assistente de pesquisa do Observatório de Aves da Estação Veracel em Porto Seguro (BA), foram dois meses intensos de monitoramento de um beija-flor para garantir o clique perfeito.
A espécie que ele tanto se dedicou em filmar e fotografar no final de 2019 e começo de 2020 trata-se do beija-flor bandeirinha (Discosura longicaudus), um dos mais bonitos do Brasil e que não é tão fácil de ser avistado.
“Uns observadores notaram a presença da ave na RPPN e comentaram sobre. Eu avistei primeiro a fêmea e depois o macho da espécie, eles estavam indo se alimentar na flor de caju, mas ficavam sempre no alto o que dificultava a visualização e o registro”, lembra.
Beija-flor bandeirinha é filmado de perto na (BA)
Ao reparar que a oferta de flores duraria poucos dias, o condutor resolveu usar um chamariz para atrair o beija-flor para perto. Foi assim que decidiu instalar um bebedouro com água e açúcar no local.
“Eu conversei com amigos e pesquisadores, todos me disseram que nunca viram essa ave visitar bebedouro, mas resolvi arriscar, pois queria garantir imagens dele”, afirma.
Para a surpresa do Jaílson e dos demais colegas o bandeirinha se rendeu e começou a se alimentar na garrafinha posicionada especialmente para ele. E quando a ave decidia “molhar o bico” o condutor aproveitava o momento para registrar.
Uma estratégia para atrair o beija-flor foi posicionar um bebedouro no local
Jaílson Souza
Com a presença do bebedouro outros colibris também começaram a aparecer, como o rabo-branco-rubro (Phaethornis ruber), considerado um dos menores do Brasil, com menos de 9 centímetros, o balança-rabo-do-bico-torto (Glaucis hirsutus), o beija-flor-de-garganta-azul (Chlorestes notata) e o beija-flor-safira (Hylocharis sapphirina).
Mas o foco principal do Jaílson era registrar ao máximo o bandeirinha, afinal, das raras vezes em que ele avistou a espécie na região, sempre foi à distancia. Com o atrativo, o admirador da natureza pôde ficar a 4 metros da ave desejada. Seja no bebedouro, ou ainda pousado, nem um clique do colibri era desperdiçado. E foi justamente quando a ave parou em um galho que o condutor conseguiu uma foto única dessa espécie.
“Eu nunca vi uma foto dele assim com as asas abertas pousado. Geralmente as fotos em que ele está pousado são do momento em que realiza o display. Ele estica as penas da cauda e mostra o formato de raquete. Para mim essa cena capturada foi um momento marcante porque comecei a fotografar em sequência e quando ele fez o movimento consegui essa imagem especial, que é a minha favorita”, comenta.
Assistente de pesquisa se dedicou diariamente durante dois meses em monitorar beija-flor
Jaílson Souza/ Arquivo Pessoal
Outro flagrante curioso registrado desse beija-flor foi é a vocalização. Em uma das primeiras gravações feitas da ave pousada, Jaílson conseguiu captar o momento exato em que ele emitia um som discreto. Diferente de outras espécies de aves, os beija-flores não cantam de forma harmônica e melodiosa, mas podem emitir sons mais delicados em voo ou pousado.
“É importante registrar todos esses momentos, são comportamentos e flagrantes que podem contribuir com informações sobre a espécie. E eu busco compartilhar vídeos e fotos para mostrar as belezas da nossa natureza e assim conquistar pessoas para ajudar a proteger as espécies e a natureza como um todo”, finaliza.
No Wikiaves, portal brasileiro em que observadores publicam registros das espécies de aves observadas, existem quase 300 fotos do bandeirinha. A ave que possui maior número de registros nessa plataforma é o canário-da-terra, com mais de 26 mil fotos cadastradas.
Nome de beija-flor faz referência à cauda em formato de “bandeirinhas”
Jaílson Souza
Bandeirinha (Discosura longicaudus)
O nome faz jus à cauda alongada com pontas em formato de raquete ou “bandeirinhas”. Tal característica o distingue de qualquer outro colibri. Mas esse artefato natural está presente apenas no macho da espécie. A fêmea tem a cauda curta e bifurcada e é bem mais discreta que o parceiro.
É uma ave majestosa repleta de beleza. A exuberância é tão grande que mal é possível lembrar que é um beija-flor pequeno, não ultrapassa os onze centímetros. O macho apresenta as penas verdes iridescentes na região da cabeça até a parte superior do peito. Conforme a incidência de luz, o bandeirinha parece “acender”.
Sem o traje brilhante a fêmea apresenta a garganta preta, peito e inferior esbranquiçados e barriga acobreada. Assim como outros colibris se alimentam se insetos e néctar. Geralmente é avistado em flores de cajueiros, ingás e abacateiros. Habita campos arborizados e distribui-se pelos estados do Amazonas, Amapá, Pará e de Pernambuco à Bahia. Ocorre também em países vizinhos como Venezuela, Guiana e Suriname.
Veja mais fotos
Pousa em galho beija-flor exibe todo o brilho das penas na região da cabeça e pescoço
Jaílson Souza
Macho da espécie é fotografado em voo se alimentando de néctar das flores
Jaílson Souza
Macho da espécie possui cauda em formato de raquete e penas verdes iridescente
Jaílson Souza
