Diversas empresas se dão conta, muitas vezes tardiamente, de que a estrutura de capital criada em um contexto de taxas de juros baixas já não é mais adequada. A dívida, que antes parecia ser uma opção de financiamento acessível, pode rapidamente se tornar o elemento mais oneroso do balanço patrimonial, mesmo sem haver modificações nas decisões operacionais da empresa.
Pedro Daniel Magalhães, especialista em crédito estruturado e gestão empresarial, comenta que essa mudança não é novidade para aqueles que acompanham atentamente o custo do capital; no entanto, ainda surpreende muitas organizações despreparadas. O fenômeno ocorre devido a um fator mecânico: à medida que as taxas de juros aumentam, o custo da dívida também se eleva, fazendo com que a vantagem fiscal associada ao pagamento de juros deixe de ser vantajosa após determinado ponto.
Compreender esse mecanismo é fundamental para evitar decisões erradas relacionadas ao financiamento em momentos inoportunos, muito mais do que simplesmente memorizar a taxa básica vigente.
Por que o aumento das taxas torna a dívida menos vantajosa?
O custo associado a uma dívida não se resume apenas à taxa contratada. Parte desse valor é compensada por deduções fiscais, pois os juros pagos reduzem a base tributária do imposto de renda e da contribuição social. Historicamente, essa vantagem torna a dívida uma alternativa mais econômica em comparação à emissão de ações.
Contudo, o problema surge quando as taxas de juros aumentam consistentemente. Segundo Pedro Magalhães, é precisamente nesse momento que os benefícios fiscais deixam de compensar o acréscimo no custo da dívida, pois este passa a incidir sobre uma taxa maior. Assim, o custo líquido da dívida também cresce. Eventualmente, essa dívida pode se tornar mais cara do que o capital dos acionistas, e muitas vezes as empresas não percebem imediatamente essa mudança.
Quando a dívida se torna mais cara do que o capital próprio?
Esse ponto crítico é conhecido na literatura financeira como o momento em que o custo médio ponderado de capital (WACC), que considera tanto a dívida quanto o capital próprio, deixa de cair com um maior endividamento e começa a subir. Antes desse estágio crítico, como explica Pedro Daniel Magalhães, aumentar a dívida pode reduzir os custos gerais de financiamento da empresa. Após esse ponto decisivo, cada nova unidade de dívida tende a encarecer toda a operação.
Entretanto, poucas empresas médias fazem esse cálculo explicitamente. Geralmente ajustam seu nível de endividamento com base na disponibilidade de crédito em vez de considerar o custo real marginal dessa dívida. Esse método pode funcionar bem enquanto as taxas estão baixas e os erros são pequenos; no entanto, quando os juros sobem, essa abordagem pode se revelar bastante custosa.
Como um elevado nível de endividamento intensifica esse impacto?
O efeito da alta nas taxas não é igual para todas as empresas. Organizações que já operam com um nível significativo de endividamento sofrem as consequências do aumento dos juros mais rapidamente, já que uma parte maior do lucro operacional está comprometida com os pagamentos dos juros. Um pequeno aumento na taxa básica pode afetar consideravelmente a margem disponível para reinvestimento.
Para Pedro Daniel Magalhães, o verdadeiro risco não reside apenas nas altas taxas de juros em si, mas sim na combinação entre essas altas e uma estrutura de capital desatualizada. Revisar essa estrutura antes que o custo da dívida ultrapasse um limite crítico costuma ser mais econômico do que renegociá-la após surgirem problemas financeiros.
A revisão necessária na estrutura de capital
A estrutura de capital deve ser constantemente reavaliada; não é uma decisão fixa. Ela precisa ser revista sempre que houver mudanças significativas nos custos das diferentes fontes de financiamento e as taxas de juros são uma variável que muda frequentemente e sem aviso prévio.
Uma empresa que considera sua combinação entre dívidas e capital próprio como imutável está essencialmente apostando na continuidade das condições favoráveis dos juros passados. Essa é uma aposta rara vez vantajosa e os custos associados à descoberta tardia dessa realidade tendem a ser muito maiores do que aqueles relacionados à revisão antecipada da estrutura financeira.
