
Pesquisadores da Universidade Estadual de Delaware investigaram migração da ave e descobriram variações em períodos de furacão. Sabiás-norte-americanos foram monitorados através de GPS’s que identificaram variação na migração de acordo com formações de furacões
Christopher Heckscher/Acervo Pessoal
De dezembro a março, o Brasil comumente recebe algumas visitas. São aves migratórias que se reproduzem no hemisfério norte durante o Verão e vêm se refugiar em nosso país quando essa região do globo passa pelo Inverno. Entre os frequentadores ilustres, uma espécie com habilidades incríveis: o sabiá-norte-americano, uma ave que foi descoberta com a capacidade de “prever” catástrofes ambientais.
O líder do estudo que chegou a essa conclusão foi Christopher Heckscher, pesquisador de ciência ambiental e ecologia na Universidade Estadual de Delaware, no Nordeste dos Estados Unidos. Ele trabalha com essa espécie (conhecida como Veery por lá) há mais de 20 anos. Suas investigações começaram avaliando como eram feitas as escolhas dos locais onde essa espécie construía os ninhos.
Instalação do microGPS no sabiá-norte-americano detectou relação entre as temporadas de furacão e a migração das aves
Christopher Heckscher/Acervo Pessoal
“Eu estava interessado em estudar pássaros canoros migratórios que dependem de florestas e percebi que o Veery era uma espécie sobre a qual se tinha pouca informação. Como eles eram comuns em meu local de estudo, tirei vantagem dessa situação”, descreve o pesquisador. Com a evolução das análises e das tecnologias, tornou-se possível rastrear as aves via GPS e, com isso, estudar os padrões que envolviam as migrações dessa espécie para América Central e do Sul.
Com dados acumulados em mais de cinco anos, o pesquisador notou que em algumas estações as fêmeas paravam de fazer ninhos mais cedo do que em outras e antecipavam a migração. “Ocorreu-me que poderia haver uma vantagem em encurtar a estação de reprodução. Foi quando eu desenvolvi a hipótese de que os pássaros estavam encurtando sua temporada a fim de se preparar ou evitar os furacões”, afirma ele.
Os pesquisadores acreditam que outras aves no mundo sejam capazes de realizar movimentos semelhantes e fazer tais “previsões”, mas ainda não há grandes estudos sobre o tema
Christopher Heckscher/Acervo Pessoal
A suposição foi testada e, em anos de furacão, os sabiás-norte-americanos realmente paravam de fazer ninhos mais cedo, possivelmente para terem tempo de migrar e navegar em torno das tempestades ou até para prepararem suas funções físicas e químicas para enfrentar uma migração desafiadora. A descoberta foi tão abrangente que, em 2018, Christopher foi capaz de pontuar às autoridades, meses antes, o início da temporada de tempestades sendo que, nem mesmo dias antes, os meteorologistas as previam.
“A capacidade de previsão das aves pode estar relacionada aos padrões de chuva que encontram no sul da Bacia Amazônica, algo que possui relação com a próxima temporada de furacões. Ou pode ser que, ao cruzarem o Golfo do México para ir para a América do Norte, sejam afetados pela temperatura da superfície do mar, que também é um indicador conhecido da temporada”, define Dr. Heckscher salientando a importância de mais estudos na área.
Entenda o que se conhece sobre a migração do sabiá-norte-americano e de que forma ele poderia “prever” os furacões
Arte/TG
Em busca dessa e de outras respostas como, por exemplo, o que tem causado um declínio populacional dessa espécie, os pesquisadores se engajam e se doam. “Meu trabalho recente é apenas uma etapa na tentativa de descobrir quais desafios as aves enfrentam e quais fatores podem afetar a dinâmica populacional. As coisas estão indo bem, embora o financiamento seja sempre uma grande limitação: continuamos a rastrear Veeries com unidades de GPS e busco mais recursos para expandir o projeto”.
Sabiá-norte-americano forragea o solo à procura de insetos, aranhas e caracóis
Silvia Linhares/ Arquivo Pessoal
Conheça a pesquisa que descobriu como sabiás ‘previam’ catástrofes ambientais
