
Coordenador de núcleos do Educafro diz que plataforma com conteúdo online foi lançada em julho, mas alunos ainda encontram dificuldades para acessar a internet. Sede da Educafro na região central de São Paulo.
Reprodução/Gloogle Maps
Após 15 anos de funcionamento utilizando os métodos do ensino tradicional, o cursinho gratuito Educafro se reinventou durante a pandemia e lançou uma plataforma online para seus alunos. A iniciativa já estava nos planos dos organizadores da instituição, mas a quarentena acelerou a entrega do projeto.
“A Educafro esse ano já estava programado sem pandemia a transição para o mundo online, porque hoje ela está intensificando realmente todo esse trabalho de TI. Então, com pandemia ou sem pandemia ia ocorrer em julho o lançamento oficial do Educafro núcleo online”, conta o coordenador de núcleos da instituição, César de Souza.
No entanto, apesar do esforço, César relata que muitos alunos enfrentam dificuldades para acessar a plataforma devido a falta de equipamentos eletrônicos como computadores e celulares.
“O nosso público em si é voltado para baixa renda, povo periférico, então, tem comunidade que realmente a gente tem uma demanda de mais de 70 alunos e tem acesso a internet limitado, tem só um celular para fazer as aulas, então, existe ainda todo um trabalho que vai ter que ser feito de campanha para atender esses jovens que não tem, por exemplo, computador, não tem internet”, conta César.
A ideia inicial do cursinho era criar um projeto unisse o online com o presencial, para assim a driblar dificuldade de acesso à tecnologia encontrada por alguns alunos, no entanto, devido a pandemia, não houve possibilidade.
O coordenador afirma que o os alunos ficaram cerca de 45 dias sem aula e que a necessidade de se readaptar rapidamente em 2020 para o mundo digital acentuou a desigualdade social na preparação para o vestibular.
“É bem mais complicado para uma pessoa de baixa renda do que para o cara que já está estruturado que já tem essa internet de 100 mega e tudo mais. É desigual. É tanto que o Educafro entrou com um processo de anulação do Enem 2020, porque vai se tornar totalmente injusta a concorrência”, afirma César.
Mudanças nos vestibulares
Devido a pandemia de Covid-19, no início de julho Ministério da Educação (MEC) anunciou que as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020 foram adiadas e serão aplicadas em janeiro e fevereiro de 2021.
Outra mudança foi no vestibular da Universidade de São Paulo (USP), pela primeira vez metade das vagas da instituição será destinada a alunos que cursaram o Ensino Médio todo em escolas públicas. Além disso, das 11.147 vagas da universidade, 8.242 serão destinadas para seleção pelo vestibular da Fuvest e 2.905 por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu)/Enem.
César considera que mesmo com a maior disponibilidade de vagas para jovens que cursaram o ensino médio em escolas públicas, os estudantes de baixa renda ainda encontram dificuldades para conseguir vencer a concorrência e ingressar no ensino superior.
“Dependendo do conteúdo que vai cair na prova talvez não mude nada, porque ele não tem acesso ao conteúdo, na verdade. Então, se a prova em si for a mesma, o que mudou para o aluno que não teve acesso ao conteúdo? Praticamente nada. Aumenta o número de vagas, mas o aluno que estava sem acesso ao estudo, continua sem acesso ao estudo”, relata o coordenador de núcleos do Educafro.
Bolsistas enfrentam dificuldades
Ao todo, a instituição atende 1.200 alunos em São Paulo. Além do cursinho popular, a Educafro auxilia também alunos de baixa renda a ingressarem em universidades particulares por meio de uma bolsa de estudos.
César relata que a evasão desse grupo de estudantes foi maior que a daqueles que fazem o cursinho. Segundo o coordenador, muitos perderam emprego devido a pandemia e não conseguiram seguir com os estudos.
“Os bolsistas é que estão sofrendo mais. Na minha regional, por exemplo, Bragança Paulista teve 54% que perdeu o emprego com a pandemia. Tiveram pessoas que foram afetadas na parte psicológica porque não conseguem se adaptar ao EAD. Então, bolsistas que começaram no primeiro semestre e ainda estão aprendendo a vivência acadêmica e logo de cara tiveram que deixar tudo o que tiveram com uma semana, duas semanas de aula, então, para eles foi bem mais difícil. Muitos trancaram a matrícula em si para voltar quando tudo voltar ao normal porque eles não conseguem se adaptar”, relata César.
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Cursinho gratuito se reinventa durante a pandemia, mas ainda encontra barreiras tecnológicas
