
De acordo com Eliana Honain, infectados com Covid-19 e seus parentes são resistentes em seguir as determinações de quarentena. Casos têm aumentado nas últimas semanas. Secretária Municipal de Saúde de Araraquara, Eliana Honain
Câmara Municipal de Araraquara/Divulgação
Araraquara (SP) vem registrando, nas últimas quatro semanas, aumento nos casos de Covid-19. Nos primeiros 11 dias de agosto foram registrados 495 novos casos – 40 deles nesta terça-feira (11) –, o que representa 20,8% de todos os casos confirmados desde o início da pandemia.
Para a secretária municipal de Saúde, Eliana Honain, o aumento do número de casos é resultado do pouco isolamento social apresentado na cidade e da maior testagem no período de inverno, quando as pessoas apresentam mais sintomas gripais.
Ela conversou com o G1 sobre a situação da Covid-19 em Araraquara (veja entrevista abaixo) e se mostrou muito preocupada com a grande movimentação de pessoas pela cidade, inclusive de pessoas que estão positivadas, mas não respeitam a quarentena.
Ela considera que um retrocesso na flexibilização é possível de ocorrer, mas diz que não se preocupa com isso pois seria o melhor para a população. Ela reconhece que a pressão para manter o comércio aberto é grande, mas diz que ela não afeta o comitê que estabelece as medidas de controle na cidade porque a responsabilidade do grupo é com as vidas.
Confira a entrevista
G1: Araraquara vinha em um patamar de menos de 200 casos por semana, mas em meados de julho, os números começaram a aumentar todas as semanas. Por que isso ocorreu?
Eliana Honain: Aumentou a contaminação das pessoas porque elas apresentam síndrome gripal. Qualquer sintoma de gripe a gente testa, isso significa que o vírus está circulando e a gripe que elas estão tendo é o novo coronavírus. Eu testo muito mais, testava 120 por dia, estou testando 220, mas número de positivados e de teste são coisas distintas. Eu mantenho a porcentagem, se eu testo 200 ou testo 100, a porcentagem de positivos para saber se está no controle tem que ser a mesma, mas tende a aumentar por causa da grande circulação de pessoas, enquanto mais circulam as pessoas mais ainda a gente tem a contaminação e transmissão da doença.
G1: Dois terços dos casos de Covid-19 em Araraquara são de pessoas que estão entre 20 e 49 anos, em sua avaliação, essa contaminação está relacionada à população economicamente ativa?
EH: É a população que está mais circulando mesmo, mas circula não só para trabalho. E, com isso, elas vão se contaminando e levando isso para outras pessoas que moram com elas e aí levam para outros grupos de risco. Isso é realmente algo que nos preocupa porque mostra muito a circulação das pessoas.
“A gente tem uma grande dificuldade, mesmo com aqueles que estão positivados e estão bem . E a gente tem uma grande resistência dos comunicantes, até por conta de muitos problemas, como o medo de perder emprego. Essas pessoas têm uma resistência muito grande de estar cumprindo o isolamento social.”
Essa é a maior luta que a gente tem hoje, o não cumprimento das pessoas. Elas alegam que não foram informadas, elas fazem inúmeras alegações. Problema que a gente enfrenta hoje com muitas dificuldades no município de Araraquara. Adesão das pessoas em relação à quarentena e também daqueles que estão comunicantes. Dificulta muito essa situação e o controle porque a adesão em Araraquara é muito baixa, muito baixa mesmo.
“A gente muitas vezes não consegue sensibilizar a população e o fator econômico pesa muito mais do que qualquer outra coisa.”
G1: Além da questão econômica, a participação em festas também tem contribuído para o aumento, já que 24% das pessoas contaminadas assumiram que estiveram em confraternizações?
EH: Isso é uma situação, esses assumiram, a grande maioria não assume e esse é o grande problema. As pessoas acabam não assumindo e aí a gente fica em uma situação muito complicada, mas a gente sabe, por exemplo, agora com o Dia dos Pais, as dificuldades que a gente vai ter no controle porque há uma grande interface de pessoas. Além do trabalho e das pessoas que residem na mesma casa, há uma grande troca, sem uso de máscaras e higienização correta junto com familiares, isso vem propiciando que aumente muito a transmissão.
G1:Esses novos casos são leves ou o aumento de infectados tem refletido na ocupação hospitalar?
EH: Sim, está. Nós nunca tivemos os indicadores assim. Hoje a gente tem quase 60% dos leitos de enfermaria ocupados na cidade e quase 29% de ocupação em leitos de UTI, então isso realmente reflete na situação da cidade por conta do desrespeito realmente a quarentena, isso é realmente complicado.
G1: Araraquara pode regredir de fase no Plano São Paulo de flexibilização?
EH: Eu não me preocupo com essa regressão. Por que eu não me preocupo? Porque o importante é a gente salvar vidas. A gente não pode perder essas pessoas. O aumento de casos pode refletir? Pode refletir. A pandemia foi instalada no estado como um todo e é um problema no estado inteiro, o interior do estado está em uma situação preocupante. Essa regressão, se tiver que ocorrer, é para o bem da população e eu não vejo nenhum problema em relação a isso. Agora, aí que tá, o setor econômico pressiona muito para que a gente faça a liberação, mas por isso que a gente toma esse cuidado maior e tem que ter muita serenidade. As pressões são muitas, mas os riscos são muitos também e nosso papel de Comitê é defender a vida.
G1: O Centro é a região da cidade com maior número de casos. Há alguma preocupação em relação ao funcionamento do comércio?
EH: Olha, não é o comércio, mas a mobilização das pessoas ali no entorno, então isso é muito grande porque ali concentra não só comércio, mas também bancos, a situação como um todo, então por conta disso a gente tem certeza que essa é uma situação ali que acaba concentrando um grande número de pessoas e com isso acaba ocorrendo uma transmissão maior e uma circulação maior do vírus.
O hospital de campanha para pacientes com Covid-19, em Araraquara (SP)
Amanda Rocha/A Cidade ON/Araraquara
G1: Araraquara foi citada como exemplo de controle de Covid-19 devido à letalidade muito baixa. O que diferencia a cidade neste aspecto.
EH: Hoje a gente já percebeu que as equipes médicas sabem lidar melhor [com a doença] depois de um tempo de atuação, com isso a mortalidade também tem diminuído porque o pessoal já aprendeu a lidar de uma forma melhor com isso. Outra coisa que tem um bom resultado é a internação precoce, isso tem ajudado muito porque a pessoa fica monitorada e com isso ela tem a capacidade e possibilidade de qualquer intercorrência ela já ser atendida prontamente e não ficar em uma situação de grande vulnerabilidade e complicações.
G1: O prefeito de Matão, Edinardo Esquetini (PSB) fez questionamentos sobre o envio de pacientes de Araraquara em estado mais grave da contaminação pelo novo coronavírus para atendimento médico na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do hospital de lá. Por que isso ocorre se há vários leitos em Araraquara?
EH: Quem regula os leitos do Sistema Único de Saúde (SUS) é a Cross (Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde), que é uma central de regulamentação estadual e ela direciona os pacientes. Assim que você precisa de uma internação, você pede no sistema Cross, você põe a ficha do paciente e eles fazem a identificação de qual é a melhor estrutura, mais próxima e adequada para atender aquele paciente. A gente não sabe para onde ele vai, a gente não interfere nisso. O SUS funciona dessa maneira, todos os leitos SUS, sendo Covid-19 ou não são regulados por essa central. Sempre foi dessa forma. Não tem sentido o que ele falou, ele desconhece como funciona o sistema, não é nós que mandamos, é a Cross que regula.
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