Ex-ginasta da Seleção exibe videodança inspirada em acidente que a aposentou de competições


“Exufrida” narra o salto que Beatrice Martins deu da ginástica artista para o circo, seu trabalho atual, após uma lesão no pé a afastar dos ginásios. Drama é exibido em festival da Unicamp. A ex-ginasta da Seleção Brasileira, Beatrice Martins, relembra em uma videodança o grave acidente de trânsito que sofreu em 1997 e que a levou a se aposentar das competições aos 16 anos de idade, quando vivia o auge da carreira. A produção é exibida gratuitamente a partir de segunda-feira (10), na 2ª edição do Festival Internacional de Videodança Sans Souci no Brasil.
“Exufrida” é uma coreografia que mescla dança e dramaturgia para relatar o drama vivido por Beatrice. Nela, a atriz dança, faz acrobacias e verbaliza uma reza para pedir a cura dos machucados gerados pelo acidente e pelo destino.
“A encenação foi o jeito que eu encontrei de contar a história da minha transição enquanto ginasta. Atravesso o acidente, leio o meu laudo médico no espetáculo de cabeça para baixo, girando no trapézio, com um livro na mão e o microfone na outra”, conta Beatrice.
Beatrice interpreta acidente durante cena de Enxufrida
Alan Schvarsberg
O acidente sofrido pela ex-ginasta aconteceu em 29 de maio de 1997. Ela e um grupo de atletas seguiam do Rio de Janeiro (RJ) para uma seletiva em Curitiba (PR), quando na via Dutra, na altura da Grande São Paulo, uma carreta atravessou o canteiro central entre as duas pistas e colidiu contra o ônibus da equipe, que trafegava em sentido contrário.
Vivendo o auge da carreira, Beatrice havia se tornado campeã brasileira infantil em ginástica olímpica e se preparava para participar da seletiva para o Campeonato Mundial da Suíça.
No período, treinava com grandes nomes da modalidade, como a treinadora Georgette Vidor e as atletas Úrsula Flores e Daniele Hypólito, que também sofreram o acidente.
“Ali, tudo realmente mudou. A minha treinadora, Georgette, ficou paraplégica. A Úrsula, que também era ginasta, chegou a ficar em coma. Me lembro de acordar, já em uma maca, e ver a Daniele também ferida”, relembra Beatrice.
Beatrice, Daniele Hýpolito e Úrsula Flores também foram atletas pelo Flamengo
Arquivo pessoal/Beatrice Martins
Seis pessoas morreram e 15 ficaram feridas na colisão. A ex-ginasta sofreu escoriações pelo corpo e teve o pé quebrado – membro que quase foi amputado dias depois, devido à uma gangrena. A recuperação física da atleta levou um ano para acontecer, sendo que seis meses ela passou internada em um hospital.
Antes do acidente, a ex-ginasta fazia treinos diários que duravam até sete horas por dia. Com a rotina rigorosa, os seis meses que ela precisou ficar parada afetaram seu condicionamento físico.
“Quando voltei a treinar, voltei porque aquilo me satisfazia. Meu corpo era acostumado com aquele ambiente. Os meus amigos estavam dentro do ginásio, meu pai estava dentro do ginásio, era uma casa para mim. Mas sem o meu físico de antes, decidi deixar a ginástica”, relata.
Salto para o circo
A disciplina e o condicionamento físico herdados da ginástica olímpica, porém, não deixaram de ser aproveitados por Beatrice. Por acaso, a artista teve contato com o circo quando foi a um ginásio encontrar o pai – que também é ginasta – e viu tecidos e trapézios no local.
“De repente, eu entrei no ginásio depois de muito tempo sem pisar em um e vi tecidos pendurados, trapézio. Era um ginásio, tinha aquelas mesmas pessoas da ginástica artística, mas era outro mundo. Era o próprio circo, e eu pensei: quero”, lembra.
Na ocasião, que aconteceu nos anos 2000, a artista passou a se dedicar para aprender sozinha as atividades circenses. Quando teve de escolher entre o circo e a publicidade, profissão que estudava na época e para a qual chegou a se formar, optou pelo universo das acrobacias.
“Hoje, eu sou uma circense. Integro um coletivo que pesquisa corpo e circo, mescla o circo com diversas linguagens. Nesse momento de pandemia, estamos nos virando como podemos, fazendo sessões de cine circo, circo tela, dando aulas online. É o meu sustento atual”, explica.
Questionada sobre a possibilidade do circo ter preenchido um espaço antes ocupado pela ginástica artística, Beatrice não descarta a ideia. Ressalta que o universo circense a ajuda a movimentar o corpo e, portanto, lhe dá tudo o que precisa.
“E enfatizo: hoje, sou uma diva de circo”, brinca.
Veja mais notícias da região no G1 Campinas

By Midia ABC

Veja Também!