
Biólogo registrou 85 espécies diferentes durante 60 dias de observação; flagrantes enriquecem estudo sobre aves que ocorrem em Colinas do Tocantins (TO). Pica-pau-verde-barrado fotografado no quintal durante o estudo
Wanieulli Pascoal/VC no TG
A pandemia interrompeu muitos projetos ao longo desses meses, mas em Colinas do Tocantins (TO) o biólogo Wanieulli Pascoal encontrou uma maneira segura de contribuir para a ciência com um experimento no quintal de casa: durante 60 dias observou as aves que apareciam na residência e que utilizavam as árvores para se alimentar e se reproduzir.
“Como está quase impossível sair para passarinhar diante da atual situação, resolvi desenvolver uma pesquisa, não só como terapia para esse período de isolamento, mas também para entender sobre a dinâmica das aves urbanas”, explica.
Tucanuçu (Ramphastos toco) foi uma das 85 espécies observadas
Wanieulli Pascoal/VC no TG
Durante os dois meses de observações Wanieulli seguiu uma dinâmica regrada. “O horário das observações na primeira parte do dia iniciava às 6h da manhã e finalizava às 9h. De tarde seguia das 16h30 até às 18h. Além disso, as aves noturnas ouvidas a partir das 18h também eram contabilizadas”, conta o biólogo, que utilizou binóculos, câmeras fotográficas e câmeras trap.
Foram registradas 85 espécies de 33 famílias e 16 ordens. Dessas, as mais observadas foram da família Psittacidae, com 12 espécies diferentes, seguida das famílias Thraupidae com oito, e Icteridae e Tyrannidae, ambas com seis. “As espécies que mais se destacaram em abundâncias diárias foram periquito-rei (Eupsittula aurea), com picos de até 271 indivíduos, e periquito-de-encontro-amarelo (Brotogeris chiriri), com picos de até 145 indivíduos”, relata o pesquisador, que fez análises minuciosas das listas de observação.
“Cinco espécies foram observadas todos os dias: rolinha-roxa (Columbina talpacoti), periquito-rei (Eupsittula aurea), periquito-de-encontro-amarelo (Brotogeris chiriri), ferreirinho-relógio (Todirostrum cinereum) e sanhaço-do-coqueiro (Tangara palmarum)”, conta.
Macho de rolinha-roxa (Columbina talpacoti) carregando material para o ninho
Wanieulli Pascoal/VC no TG
A média diária de espécies observadas foi de 32, tendo picos de 44 espécies e baixa de 11 espécies. Os dias com menor registro de espécies estão associados aos dias chuvosos, onde havia uma grande redução das atividades das aves
A lista de observação conta ainda com aves novas para a região, como a gralha-do-campo (Cyanocorax cristatellus) e o caraxué (Turdus nudigenis). “Foram os registros mais notáveis durante o estudo, pois não estavam na lista das espécies registradas na área urbana”, explica Wanieulli, que usou como referência as análises do Projeto das Aves de Colinas, desenvolvido por ele há pelo menos 11 anos.
Biólogo conta com ajuda da comunidade para identificar aves de Colinas (TO)
Alma-de-gato (Piaya cayana) ocorre em todo o Brasil e tem uma vasta distribuição na América Latina
Wanieulli Pascoal/VC no TG
Comportamento
Além da listagem, o pesquisador registrou o comportamento das aves: rolinha-roxa, baiano e cambacica foram flagrados colhendo material para a construção do ninho. “Observei também espécies como bem-te-vi, suiriri, corruíra, ferreirinho-relógio, saíra-amarela e limpa-folha-do-buriti carregando alimento no bico e, após alguns dias, flagrei os filhotes”, conta Wanieulli, que destaca ainda o cortejo nupcial da primavera (Xolmis cinereus).
“As aves realizaram displays de acasalamento, com voos ondulados acompanhados da vocalização. Esse comportamento era frequente ao longo do dia”, completa.
Bando de sanhaço-do-coqueiro flagrado no comedouro
Wanieulli Pascoal/VC no TG
Outra observação que chamou atenção do biólogo foram os deslocamentos das aves de áreas de dormitório para áreas de alimentação. “Um grupo de japuaçus (Psarocolius bifasciatus) foi observado realizando quase que diariamente voos do sul para o norte no início da manhã, entre 6h e 6h20min, retornando entre 17h e 17h40min. Já as pombas asa-branca (Patagioenas picazuro) realizavam voos do oeste para o leste pela manhã, com uma extensão maior de tempo, e retornavam no final do dia, fazendo o sentido contrário. Assim também faziam os papagaios-verdadeiros (Amazona aestiva) e as curicas (Amazona amazonica)”, conta.
De acordo com o especialista, os periquitos-rei e os periquitos-de-encontro-amarelo também realizavam voos de dispersão no início da manhã de um dormitório próximo ao quintal para várias direções, porém a grande maioria seguia do sul para o norte, retornando no final do dia.
Sabiá-do-campo (Mimus saturninus) no comedouro
Wanieulli Pascoal/VC no TG
Comedouro agitado
Após o primeiro mês de observações, o pesquisador montou comedouro para aves e bebedouro para beija-flores. No bebedouro foram flagradas cambacicas, saíra-amarela, sanhaço-cinzento, sanhaço-do-coqueiro e cinco espécies de beija-flor. “Para o comedouro, a espécie mais abundante e mais frequente foi o sanhaço-do-coqueiro, com até 20 indivíduos se alimentando de uma só vez. Observei que as aves utilizaram o comedouro em todos os 23 dias de monitoramento. O sabiá-do-campo (Mimus saturninus) foi o menos abundante e menos frequente, utilizando o comedouro apenas quatro dias e apenas dois indivíduos visualizados”, detalha Wanieulli, que comemora a chance de enriquecer a pesquisa sobre as aves que ocorrem na cidade.
“O estudo resultou em dados muito interessantes para complementar o entendimento das dinâmicas utilizadas pelas aves urbanas do nosso município, as adaptações de alimentação, reprodução e também os deslocamentos que as aves fazem diariamente”, diz.
As aves realizam atividades muito interessantes ao nosso lado e pela correria do dia-dia não prestamos atenção na maioria delas. O isolamento imposto pelo novo coronavírus foi crucial para a realização desse estudo
Diante dos resultados, o biólogo pretende publicar um artigo com detalhes das observações. “Esse estudo serve de modelo para aqueles que querem unir o útil ao agradável, ver passarinho do quintal de casa. Os resultados podem ser surpreendentes”, finaliza.
Papa-lagarta-de-euler (Coccyzus euleri) ocorre em todas as regiões do Brasil
Wanieulli Pascoal/VC no TG
Experimento no quintal durante pandemia aumenta lista de aves urbanas do Tocantins
