Gêmeas siamesas unidas pelo abdômen fazem tratamento para cirurgia de separação: ‘Nunca vejo tristeza nelas’, relata mãe


Heloá e Valentina têm nove meses e compartilham o fígado e o intestino. Família de Guararema, na Grande São Paulo, faz campanhas para a compra de leite, fraldas e lenços; mãe agradece a Deus pelo que considera um milagre. Unidas pelo abdômen, Heloá e Valentina compartilham o fígado e o intestino
Arquivo Pessoal/Waldirene Prado
É como um milagre de Deus que Waldirene Carmelita do Prado, de 32 anos, vê a vida de suas duas filhas mais novas, Heloá e Valentina. Moradoras de Guararema, na região metropolitana de São Paulo, elas as gêmeas siamesas nasceram unidas pelo abdômen e compartilham órgãos como o fígado e o intestino.
As duas pequenas guerreiras, que nasceram na capital e estão com 9 meses, precisam se preparar para um futuro procedimento de separação, que deverá ser feito em Goiânia, ainda sem uma data definida. O fato de serem gêmeas siamesas demanda cuidados maiores e gastos elevados, principalmente com fraldas, lenços e com um leite especial. Mas, acima de tudo isso, está a alegria de uma mãe por sempre ver um sorriso no rosto das filhas.
“Eu não vejo tristeza nas duas em nenhum momento. As duas estão sempre brincando. Elas já estão sabendo puxar o cabelo. Quando elas nasceram, tiveram que raspar o cabelinho. Agora que elas estão vendo que estão com cabelinho, uma quer puxar o cabelo da outra. Mas temos que estar felizes, porque é um presente e Deus. É tudo na vontade Dele. Eu creio que ainda teremos uma vitória”, diz Waldirene, que tem mais uma filha, de 5 anos.
“Só o fato de elas estarem aqui hoje, na idade que elas têm, de 9 meses, já é um milagre, porque o médico falou que é difícil de chegar a essa idade. Elas são muito espertas. Já falam mamãe, papai. São crianças que eu falo que Deus está muito presente na vida delas”.
O diagnóstico e a procura por um especialista
Waldirene conta que Heloá e Valentina compartilham o fígado e o intestino. De acordo com a mãe, cada uma delas tem os próprios quadris, que estão unidos. Waldirene disse que soube que as filhas estavam unidas no primeiro exame de ultrassom que fez.
“Eu descobri que estava grávida com dois meses. No primeiro ultrassom, já constou que elas eram unidas, mas a gente não sabia como elas estavam. A gente sabia que elas estavam unidas pelo abdômen. Então foi aquele choque, porque não dava para ver se estavam com os bracinhos, as perninhas, pois eram muito pequenas ainda. Mas Deus fez um milagre na vida delas, e elas estão aqui perfeitinhas”.
Waldirene e sua família decidiram pesquisar na internet por um especialista em casos de gêmeos siameses e chegaram até o cirurgião pediatra Zacharias Calil, de Goiânia, que é conhecido por já ter realizado outros procedimentos de separação de gêmeos siameses. Os pais levaram Heloá e Valentina a Goiás para as primeiras consultas em maio.
“Eu mandei um e-mail, e ele entrou em contato comigo. A gente conversou. Ele disse que faz a cirurgia e que o único obstáculo era ir para lá. Eu falei: a gente dá um jeito. Aí a Casa da Amizade de Guararema fez um bingo. Com a arrecadação, nós fomos para lá, ficamos lá e conseguimos falar com ele”.
A mãe das gêmeas planeja voltar a Goiânia no fim deste ano para dar sequência ao tratamento. Waldirene conta que o procedimento é realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas a família tem procurado juntar dinheiro já pensando nos custos que terão com a próxima viagem.
“Em janeiro temos que estar lá para fazer o restante do procedimento para colocar os expansores. O expansor é igual a uma prótese de silicone. Eles colocam e, a cada quatro, cinco dias, vão enchendo. É para esticar mais a pele. Eu até falei: não posso tirar da minha pele e dar para elas? Ele falou que não, porque pode haver rejeição. Por isso é necessário colocar os expansores”.
Cuidados especiais
O fato de Heloá e Valentina serem gêmeas siamesas exige uma atenção especial de Waldirene e de seu marido Fernando, tanto nos cuidados do dia a dia, como pensando também no crescimento das duas crianças, para que seja possível realizar um procedimento de separação. As duas filhas precisam tomar, por exemplo, um tipo específico de leite.
“Elas usam uma lata de leite por dia. O leite é em torno de R$ 120 a R$ 140. O médico recomendou porque elas precisam de pele para fazer a cirurgia. Elas precisam engordar para ter pele. Conforme vão engordando, vão esticando mais a pelinha. Então precisam tomar esse leite para estar tudo certo na hora de colocar os expansores”.
“Um dos cuidados do dia a dia é para não apertar por causa da costelinha delas. Tem que saber pegar para não machucar. Elas já estão gordinhas, graças a Deus. E tem que ficar de olho, porque elas já fazem arte. Uma arrasta a outra. Então tenho que ficar de olho para não cair, para não virar”.
Além do leite, os outros principais gastos estão relacionados à compra de lenços e fraldas específicos para Heloá e Valentina. De acordo com Waldirene, além das doações que recebe e das campanhas divulgadas nas redes sociais, também são realizadas rifas para levantar dinheiro em prol das gêmeas.
“A gente recebeu doações. Até o pessoal de Morrinhos, de Goiânia, de Guararema, de São Paulo que está nos ajudando. Eles estão fazendo campanha para nos ajudar com leite e também ajudam com fralda e lenço umedecido. A fralda tem que ser aquela XXG e ter um elástico que dá para fechar. As outras marcam a perninha, machucam, porque é uma fralda só para as duas. O lenço umedecido tem que ser aquele que não irrita. Já tentei usar outros, mas irritou. Quando descobri o que era, eu troquei o lenço e não deu mais”.
Médico especialista em casos de siameses explica procedimentos
O G1 também conversou com Zacharias Calil, médico de Goiânia que está acompanhando o caso de Heloá e Valentina e que já realizou, até hoje, 18 procedimentos de separação de gêmeos siameses. Calil recebeu as gêmeas em maio para a realização dos primeiros exames.
“Pelo exame que nós fizemos, é possível, sim, a separação, desde que tenha pele suficiente. Temos que ir analisando até chegar o momento da cirurgia. Já era para ter colocado os expansores agora no segundo semestre, mas, com a pandemia, as cirurgias eletivas no serviço público estão suspensas. Então vamos ter que esperar mais um pouco para podermos fazer”, disse o médico.
Calil explica que o procedimento da colocação de expansores é essencial para que, futuramente, seja realizada a cirurgia de separação.
“É uma equipe muito grande. Envolve também cirurgião plástico, porque não tem pele. E aí nós vamos colocar os expansores de silicone debaixo da pele. É como uma prótese. Você coloca vazio debaixo da pele, e ele vai insuflando para criar a pele e poder fechar o abdômen delas. Elas estão unidas pelo abdômen e pela pelve, então não tem pele. No momento em que se separa, fica um buraco muito grande. Aí tivemos que programar essa cirurgia com o tempo. Elas precisam ganhar muito peso para terem condições de se submeter a uma cirurgia grande como essa, de 12 a 14 horas”, diz.
A preparação para a cirurgia leva bastante tempo. “Nós geralmente colocamos expansores de 500 ml. Então você coloca três, quatro expansores. Um em cada local no qual você vai decidir onde tem sustentação, porque tem que ficar debaixo de um suporte, como um músculo, por exemplo. E você coloca uma válvula do lado. Passam 20 dias, e a gente começa a injetar soro fisiológico por essa válvula. A cada vez, injeta 20, 30 ml, até completar 500 ml. Às vezes esses expansores têm até 750 ml. E a pele vai esticando. Vai sendo criada pele”.
De acordo com Calil, o peso ideal que as gêmeas precisam atingir é de 20 quilos e a cirurgia é bastante complexa.
“Quando você separa, é uma coisa impressionante. Muda todo o sistema de metabolismo deles. Muda tudo. O sistema arterial, venoso. O organismo se modifica totalmente. Em todos os casos que nós operamos nós percebemos isso. Então é muito complexo”.
Por fim, Calil explica que esses casos de gêmeos siameses acontecem por causa de uma malformação por volta do 13º dia da formação do óvulo embrionário, quando teoricamente se formariam os gêmeos separadamente, mas a divisão é interrompida. Segundo o médico, pode estar associada a fatores ambientais.
“Não tem uma causa específica. Eu tenho uma teoria de muitos anos. Concordo que está aumentando muito a estatística de siameses, mas não só devido ao aumento da população, como também devido aos fatores ambientais. Eu sou adepto desta teoria, das alterações no meio ambiente e do uso indiscriminado de agrotóxicos. Eu cito o exemplo da Guerra do Vietnã, que eles utilizaram aquele agente laranja como desfolhante. Se você usar de maneira inadequada, ele entra no organismo e mimetiza um hormônio natural, provocando as malformações. Na Guerra do Vietnã, depois de um determinado período, houve dez casos de gêmeos siameses e de outras más formações”.

By Midia ABC

Veja Também!