Libanês que viu de perto explosão em Beirute achou que fosse morrer: ‘Vi muitas pessoas ensanguentadas pelas ruas’


Miled Khoury é morador de São Paulo há 28 anos e presenciou explosão de depósito de nitrato de amônio na terça-feira (4), que deixou mais de 100 mortos e cerca de 4 mil feridos na capital libanesa. Empresário libanês fotografou ruas de Beirute no momento da explosão de um depósito na zona portuária de Beirute
Arquivo pessoal
O empresário libanês Miled Khoury estava nas ruas de Beirute no momento da explosão de um depósito de nitrato de amônio na zona portuária da capital libanesa, na terça-feira (4), que deixou mais de 100 mortos e cerca de 4 mil feridos. Não há informação sobre a causa.
Morador de São Paulo há 28 anos, Khoury é fluente em português. Ele contou ao G1 que tinha acabado de sair de uma reunião em um prédio que caiu e poderia ter morrido se tivesse permanecido lá.
De acordo com o empresário, ele estava no carro com o cunhado e entrou em uma rua pequena e estreita, cercada de prédios, para fazer uma volta, o que ele acredita tê-los protegido da explosão.
“Ouvimos uma pequena explosão, uma segunda na sequência e uma terceira com mais força. Quase voou nosso carro. Rezamos, nos agachamos e quando passou era um nevoeiro muito grande que cobria toda a cidade. Começamos a procurar como sair, tinha muito carro e moto tombados, muita gente machucada e sangrando nas ruas. A devastação era tão grande que a cada minuto a gente achava que a bomba tinha estourado ali. Levamos quase duas horas para sair dos escombros”, afirma.
Explosão em Beirute; FOTOS
VÍDEOS da explosão em Beirute
Veja como era a o porto de Beirute antes da explosão
Khoury lembra que o cenário na capital libanesa parecia de guerra, tamanho o impacto da explosão nos prédios e casas da região central da cidade.
“Vimos as fachadas dos prédios todas destruídas. Se eu tivesse permanecido no local da reunião de onde saí, não teria sobrevivido. Vi muita gente chorando e gritando, andando nas ruas até os hospitais. As pessoas se machucaram dentro de suas casas, vidros estouraram. Foi muito devastador”, lembra o empresário.
Empresário libanês fotografou ruas de Beirute no momento da explosão de um depósito na zona portuária de Beirute
Arquivo Pessoal/Divulgação
Além de dono de uma marca de jeans, Khoury é cônsul honorário do Líbano em Campinas, cidade do interior de São Paulo. Ele acredita que a situação econômica do país se agravou por causa da pandemia e da revolução ocorrida em 17 de outubro do ano passado.
Na ocasião, uma nova taxa sobre as ligações feitas por WhatsApp se tornou o gatilho de um protesto social que levou centenas de milhares de libaneses às ruas, para exigir a renúncia em bloco do governo do sunita Saad Hariri, do presidente cristão Michel Aoun e do presidente do Parlamento, o xiita Nabih Berri.
“O país está passando por uma crise devastadora por causa da revolução de outubro, depois veio a pandemia e agora essa explosão. Nesse momento precisamos de ajuda humanitária. Só tenho uma certeza: que a cidade de Beirute nunca morrerá, voltará a se reerguer brevemente pela grandeza do seu povo e pela ajuda de Deus”, afirma.
Khoury ajudou a desenvolver o samba-enredo da escola de samba Império de Casa Verde, que em 2020 homenageou o país.
“O Líbano tem 6 mil anos de história, é difícil traduzir isso em uma hora de desfile, mas falamos de cultura, turismo e história e a escola o fez corretamente, o carnavalesco Flávio veio ao Líbano comigo e um historiador veio junto. Daria para fazer cinco carnavais”, afirma.
O empresário libanês Miled Khoury
Arquivo pessoal/Divulgação
Repercussão em SP
A comunidade libanesa no Brasil é maior até que a população do Líbano. Só no estado de São Paulo há mais de 4 milhões libaneses e descendentes. A população no Líbano é de 6,8 milhões de habitantes.
De São Paulo, a jornalista Imani El Zoghbi, de 32 anos completados nesta quarta-feira (5), diz que a explosão poderia ter atingido membros de sua família caso não estivessem isolados em uma cidade vizinha por causa da pandemia de coronavírus.
“Minha família estava segura, mas graças ao isolamento, porque tenho primos que estudam em faculdades de Beirute e eles não estão na cidade porque as aulas foram suspensas. Eu vou ao Líbano todos os anos e ano passado estava passando por Beirute por volta dessa data. Se não fosse o isolamento, eu poderia estar lá, inclusive, porque é onde fica o aeroporto. Foi um presente saber que minha família está segura, mas, mesmo assim, a explosão foi tamanha que meus parentes sentiram um tremor como se fosse um terremoto”, afirma.
Zoghbi vê com tristeza o acontecimento e acompanha a investigação sobre o caso a partir do Brasil.
“O Líbano já é um país que vivem em uma crise político-econômica muito grande, então, espero pelo menos que tenha sido apenas um acidente. É lamentável que tenha acontecido essa tragédia e nem precisa ter acontecido com a minha família para eu sentir. Muita gente perdeu a vida, outras estão feridas, tem a situação dos hospitais em meio à pandemia de coronavírus… É muito triste, é momento de orar muito, mandar energia positiva, mandar ajuda que for possível”, opina.
Zoghbi acredita, porém, que a cidade se reconstruirá com a força de costume.
“Beirute já foi tida como a Paris do Oriente e mais uma vez terá de se reconstruir. É um lugar que não deixa nada a dever a grandes metrópoles do mundo. Ao invés do cedro, a bandeira do Líbano poderia ter uma Fênix porque eles têm uma capacidade de se reconstruir considerável e uma força louvável.”
A jornalista libanesa Imani El Zoghbi em viagem a Beirute em 2016
Arquivo Pessoal/Divulgação
Explosão no Líbano causou preocupação na comunidade libanesa em SP
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By Midia ABC

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