MP quer números de celulares e quebra de sigilo telefônico dos 31 PMs investigados por 9 mortes e 12 feridos em Paraisópolis em SP


Ministério Público fez solicitação à Polícia Civil, que investiga policiais militares suspeitos de causar mortes e ferimentos nas vítimas durante baile funk em dezembro de 2019. Laudo aponta que mortes foram por asfixia e pisoteamento. MP pede quebra de sigilo telefônico de PMs envolvidos no caso Paraisópolis
O Ministério Público (MP) pediu nesta quarta-feira (25) à Polícia Civil os números dos celulares dos 31 policiais militares investigados pela ação que deixou nove pessoas mortas e 12 feridas num baile funk em Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo. O caso ocorreu no dia 1º de dezembro de 2019 e repercutiu no país.
A promotora Luciana André Jordão Dias, do 1º Tribunal do Júri no Fórum da Barra Funda, na Zona Oeste, informou à reportagem que, após a chegada da lista com a relação dos aparelhos, irá solicitar à Justiça a quebra dos sigilos telefônicos dos agentes da Polícia Militar (PM). Um dos objetivos da apuração é saber o local exato onde cada um dos PMs estava no dia da tragédia.
Laudo apontou que as vítimas foram asfixiadas e pisoteadas e chegaram mortas aos hospitais. Parentes das vítimas e entidades de direitos humanos entendem que causas, circunstâncias e eventuais responsabilidades pelas mortes e feridos ainda precisam ser esclarecidas. Segundo eles, direta ou indiretamente, a tragédia só ocorreu porque houve uma ação policial.
A população alegou, por exemplo, que os agentes encurralaram as pessoas em duas vielas para dispersar o baile funk. E que para isso as agrediram, provocando tumulto. Vídeos gravados por moradores e sobreviventes mostram PMs batendo em pessoas durante a dispersão.
Os policiais militares, por sua vez, alegaram à época que procuravam suspeitos de crimes na festa, conhecida como baile da DZ7. Segundo os agentes, os frequentadores morreram e se machucaram após serem pisoteados uns pelos outros em vielas depois que os criminosos atiraram contra os agentes.
Veja acima quem são as 9 pessoas que morreram após ação da PM em Paraisópolis em dezembro de 2019
Reprodução/Arquivo pessoal
Segundo os PMs, houve corre-corre e a população os agrediu com paus, pedras e garrafadas. Eles constaram que então precisaram usar balas de borracha, bombas de gás e de efeito moral e cassetetes para dispersar a multidão que participava do baile.
Todos os policiais militares que, de um modo ou de outro, participaram da ação foram afastados preventivamente pela corporação enquanto durarem as investigações no Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil, e as apurações da Corregedoria da Polícia Militar.
O DHPP começou a ouvir os PMs em julho. O G1 não conseguiu localizar as defesas dos policiais militares para comentarem o assunto. Em outras ocasiões anteriores, os advogados sustentaram que seus clientes são inocentes e não contribuíram para as mortes dos frequentadores dos bailes.
Inquérito criminal
Áudios mostram atuação de PMs em Paraisópolis
O DHPP apura o caso na esfera criminal para saber o que ocorreu em Paraisópolis e se a ação dos policiais causou as mortes e ferimentos. Peritos do Instituto de Criminalística (IC) e policiais do Departamento de Homicídios usaram um scanner para captar imagens em 360º dos dois becos onde os nove jovens morreram pisoteados. A perícia está fazendo uma reconstituição virtual com esse material.
A intenção é comparar imagens de câmera de comércio com as captadas pelo scanner para ajudar os policiais a ter uma ideia mais precisa do que aconteceu no dia da tragédia. O objetivo é individualizar a conduta de cada envolvido e saber de quem foi a responsabilidade pelas mortes.
O inquérito da Polícia Civil ainda não tem prazo para terminar porque terá de ouvir os demais PMs envolvidos na ação.
Inquérito administrativo
PMs voltam às ruas de Paraisópolis após 9 morrerem em baile funk
Reprodução TV Globo
A Corregedoria da PM, em contrapartida, concluiu em fevereiro por meio de Inquérito Policial Militar (IPM) que a ação dos policiais militares foi lícita e que eles agiram em legítima defesa. O órgão investigava a conduta dos policiais militares no âmbito administrativo para saber se eles cometeram alguma irregularidade na ação.
O Ministério Público Militar (MPM), no entanto, pediu novas informações para a Corregedoria. O promotor Edson Corrêa Batista solicitou que o órgão busque imagens e depoimentos para esclarecer quem são os organizadores do baile funk da DZ7. Em relatório, o capitão encarregado pelo IPM escreveu que quem promove essas festas sem cumprir as leis municipais tem responsabilidade pela tragédia.
Ainda em fevereiro, o juiz Ronaldo João Roth, da 1ª Auditoria do Tribunal de Justiça Militar, determinou que a Corregedoria cumpra novas diligências no Inquérito Policial Militar. O IPM tem cerca de 1.600 páginas.
Os 9 mortos
Exames feitos nos corpos das vítimas de Paraisópolis indicam que elas morreram pisoteadas
Segundo a Polícia Técnico-Científica, a causa das mortes foi asfixia mecânica provocada por sufocação indireta provavelmente em decorrência do pisoteamento. A única vítima que não morreu por asfixia foi Mateus dos Santos Costa, de 23 anos. Ele teve lesão na coluna.
Veja abaixo quem são as pessoas que morreram:
Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos
Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos
Eduardo Silva, 21 anos
Denys Henrique Quirino da Silva, 16 anos
Mateus dos Santos Costa, 23 anos
Dennys Guilherme dos Santos Franca, 16 anos
Gustavo Cruz Xavier, 14 anos
Gabriel Rogério de Moraes, 20 anos
Luara Victoria de Oliveira, 18 anos
Faixa durante ato ecumênico em Paraisópolis pede fim da violência uma semana após mortes
Reprodução
Imagens acima mostram versões da PM e dos moradores para as mortes em Paraisópolis
Arte: Juliane Souza, Guilherme Gomes e Wagner Magalhães/G1
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