Óbitos pelo coronavírus fazem de julho o mês com mais mortes em Campinas desde 2002


Dados de Cartórios de Registro Civil apontam que 1.120 pessoas morreram neste mês, sendo que pelo menos 406 delas foram por causa da Covid-19. Cemitério da Saudade, em Campinas (SP)
Rui do Amaral/G1
Campinas (SP) registrou em julho o maior número de mortes em um único mês desde que iniciou a série histórica de estatísticas dos Cartórios de Registro Civil pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2002. Pela primeira vez, a cidade ultrapassou a marca de mil óbitos – foram 1.120 -, e o recorde está diretamente relacionado com o impacto da Covid-19.
De acordo com a pesquisadora Tirza Aidar, do Núcleo de Estudos de População (Nepo), da Unicamp, da mesma forma que a pandemia contribuiu para o crescimento de mortes, medidas como o isolamento social, por parte da população, serviram para diminuir óbitos por doenças comuns do período entre idosos e crianças, por exemplo.
“Um fator importante é que no outono e inverno sempre cresce o número de óbitos, entre os idosos principalmente, por conta das doenças respiratórias. Essa sazonalidade é presente para a maioria das populações. Muito provavelmente em 2020, o isolamento social contribuiu para diminuir óbitos por outras ‘gripes’ entre os mais velhos e crianças, e alguns acidentes, como de trânsito e atropelamentos. Por outro lado, há crescimento das mortes devido a nova pandemia”, explica.
Nessa balança entre reduções de determinadas causas de mortalidade da população e o surgimento da Covid-19, os números foram inflacionados pela pandemia.
Segundo números divulgados pela prefeitura de Campinas até a última sexta-feira (2), do total de 1.246 mortes provocadas pela doença até o momento, 406 ocorreram em julho.
Mortes por Covid-19 registradas por mês:
5 mortes ocorreram em março
17 mortes ocorreram em abril
79 mortes ocorreram em maio
290 mortes ocorreram em junho
406 mortes ocorreram em julho
282 mortes ocorreram em agosto
167 mortes ocorreram em setembro*
*dados divulgados pela Prefeitura até 2 de outubro
O número de mortes por Covid-19 em julho na cidade de Campinas (406) é maior que a diferença na comparação com o mesmo mês do ano anterior, quando não havia pandemia.
Segundo os dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), os Cartórios de Registro Civil registraram 771 óbitos em julho de 2019 – 349 a menos que neste ano.
Outro ponto que reforça o impacto da pandemia na mortalidade da população neste ano, em especial em julho, é que os números ficaram bem acima da média dos últimos anos.
Em junho, por exemplo, Campinas teve 902 óbitos ao total – 290 deles por Covid-19. No entanto, ao contrário de julho, a metrópole já havia registrado, em anos anteriores, números maiores que esses, mesmo sem a existência da pandemia, como em 2016 (913) e 2017 (906).
“Há variações aleatórias anuais, por isso importante avaliar médias móveis. A média do mês de junho dos anos de 2015 a 2017 foi de 833 mortes; a de 2016 a 2018, de 858; e a de 2017 a 2019, de 773. Portanto, sempre mais baixo que o observado em 2020”, explica Tirza Aidar.
Rua Barão de Jaguara na época em que a epidemia atingiu a cidade
Museu de Imagem e Som de Campinas
Febre amarela x Covid-19
Se a Covid-19 já deixa marcas na história de Campinas, mais de um século antes outra doença assombrou a cidade. A epidemia de febre amarela, que quase tirou o município do mapa na reta final do século XIX, chegou com tudo em 1889.
Diferentemente dos dias atuais, em que já sabemos qual o vírus responsável pela Covid-19, suas formas de transmissão e, consequentemente, prevenção, 131 anos atrás a febre amarela era um mal com causas desconhecidas e que fez, proporcionalmente, muito mais vítimas que a doença provocada pelo novo coronavírus.
Membro da da Academia Paulista de História e autor de livros sobre a epidemia da febre amarela na cidade, Jorge Alves de Lima conta que em 1889, ano da chegada da febre amarela, 1.981 pessoas morreram pela doença, em uma cidade que, após as fugas dos mais ricos e e castigou, sem piedade, cerca de 5 mil ex-escravos, pobres e imigrantes que ficaram na cidade.
Estimativas da época apontam em oito anos, 3 mil mortes foram provocadas pela febre amarela no fim do século XIX, isso em um período que a cidade tinha em torno de 20 mil habitantes. Era como se 15% da população morresse da doença.
Como comparação, era como se 182 mil dos 1.213.792 habitantes da Campinas dos dias atuais, segundo o IBGE, morressem pela Covid-19.
“Hoje nós temos recursos médicos, temos hospitais, avanço da ciência, o que não havia na epidemia da febre amarela. Naquela época não havia saneamento, demorou-se a conhecer a causa da febre, o sujeito ficava doente, e muitas vezes morria em casa”, descreve Lima.
Aos 83 anos, o escritor analisa que o problema atual para se evitar mais mortes pelo novo coronavírus é a falta de consciência da população.
“Você dá um pouco de liberdade, já vê barzinho lotado, gente dançando, tudo sem máscara. Não estão nem aí com o próximo. Se não respeita a si próprio, como proteger os outros?”, completa.
Infográfico mostra os sintomas da Covid-19
G1
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By Midia ABC

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