
Artigo conta com estudos feitos por diversos especialistas ao longo dos anos; estima-se que número de espécies do grupo esteja subestimado em pelo menos 50% Adenomera inopinata é a mais rara entre as espécies descritas
Leandro Moraes/Arquivo Pessoal
A Amazônia, bioma com maior riqueza da fauna brasileira, acaba de ganhar mais seis espécies de anfíbios: foram descobertas novas rãs do gênero Adenomera.
O artigo científico que descreve os animais foi publicado na última quarta-feira, no periódico Zoological Journal of the Linnean Society, mas os estudos vêm sendo realizados há muito tempo. “As descobertas são resultado de muitos anos de esforço colaborativo entre pesquisadores de diversas instituições do Brasil e do exterior. Além das expedições em lugares remotos da Amazônia, coletamos o máximo de informação possível em campo: materiais para análise genética, fotos e gravações de sons. Tudo para auxiliar na diferenciação das espécies”, comenta Pedro Peloso, professor da Universidade Federal do Pará e um dos autores da pesquisa.
A variedade de materiais coletados é essencial, uma vez que algumas dessas espécies são quase indistinguíveis quando comparadas pelas características físicas, forma e cor. “No entanto, elas são geneticamente muito diferentes, além de apresentarem vocalizações e comportamentos únicos. Por isso, estudos integrativos e abordagens mais inclusivas com informações da anatomia, dos cantos e das sequências de DNA contribuem muito para as descobertas”, destaca o líder da pesquisa, Thiago de Carvalho, responsável por compilar os dados das pesquisas feitas por diversos especialistas, de várias instituições, ao longo dos anos.
Nome científico da espécie é homenagem às comunidades Mebêngôkre-Kayapó, da Amazônia
Pedro Peloso/Arquivo Pessoal
De acordo com o pós-doutorando na Universidade Estadual Paulista, em Rio Claro, essa é uma conquista importante para a ciência, mas é só o começo de uma longa trajetória. “Até a virada do milênio somente oito espécies eram conhecidas para o gênero Adenomera. Desde então, a diversidade de espécies desse grupo quase quadruplicou. Apesar dos avanços, ainda existem muitas espécies a serem descritas formalmente”, diz.
Estima-se que mesmo com essas novas descrições o número de espécies do grupo esteja atualmente subestimado em pelo menos 50%
Dedicado ao estudo de anfíbios sul-americanos há 10 anos, Thiago já foi responsável pela descoberta de outras seis espécies do mesmo gênero entre 2013 e 2019. A missão agora é continuar pesquisando a biodiversidade do Brasil e incentivar pesquisas futuras.
O artigo é um compilado de estudos de diversos pesquisadores
Arte: Giulia Bucheroni
A nomeação
A descrição científica de espécies novas se faz em publicação formal, geralmente na forma de artigo científico. Um dos critérios para o reconhecimento da espécie é a escolha de um nome científico para o animal, esse, que deve ser único e distinto em comparação às que já foram descritas.
“Os nomes escolhidos das novas rãs variam entre homenagens a pesquisadores e povos indígenas ou referências a alguma característica da espécie e do local onde ocorrem”, explica Thiago, que destaca a homenagem feita às comunidades indígenas Mebêngôkre-Kayapó. “A rã Adenomera kayapo ocorre exatamente nas regiões onde os Kayapó viveram no passado, ou vivem atualmente. O nome é uma maneira de reconhecê-los como um dos principais defensores da diversidade biocultural da Amazônia”, diz.
Para a escolha do nome Adenomera amicorum a inspiração foi um grupo de amigos liderados pela pesquisadora e coautora do estudo Albertina Lima, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. “Esses pesquisadores estavam estudando um outro grupo de rãs amazônicas na região de Santarém, no Pará, no início dos anos 2000, quando se depararam com essa espécie, que veio a ser descrita quase vinte anos depois”, completa.
O nome em latim “amicorum”, que significa ‘amigos’, faz referência à amizade entre os integrantes dessa equipe de pesquisadores e homenageia todos os colaboradores de campo
Entre as descobertas, três espécies encontradas às margens do rio Tapajós, no Pará, chamam atenção pela raridade. “A Adenomera tapaionica carrega no nome uma referência à sua distribuição, já que ocorre na margem esquerda do médio e baixo rio Tapajós”, destaca Leandro Moraes, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, que também participou do artigo.
“Já a Adenomera aurantiaca faz referência à coloração laranja dos braços e penas, característica incomum nesse grupo de rãs”, completa.
Adenomera aurantiaca chama atenção pela cor alaranjada das pernas, característica incomum entre as espécies do grupo
José Cassimiro/Arquivo Pessoal
Muitos nomes científicos são inspirados do latim. É o caso da escolha do nome da quinta espécie: Adenomera inopinata, do latim ‘inesperado’, representa a surpresa dos pesquisadores com a descoberta dessa espécie no médio rio Tapajós, de onde duas outras espécies já haviam sido descobertas. “Essa é a mais rara das espécies descritas”, finaliza Leandro.
A sexta e última espécie descrita leva o nome de Adenomera gridipappi, nome que homenageia o pesquisador brasileiro Marcos GridiPapp, professor associado da Universidade do Pacífico que supervisionou Thiago durante o doutorado e pós-doutorado. “Na Califórnia estudei com detalhes os sons produzidos pelas rãs Adenomera, a fim de entender como eles evoluem entre as espécies. A homenagem é uma maneira de demonstrar ao Marcos como sou grato pelo treinamento em bioacústica durante minhas visitas ao laboratório dele”, destaca o pesquisador.
“É muito comum que as espécies desse grupo de rãs sejam muito parecidas morfologicamente. Por isso, os sons produzidos por elas atuam como ferramenta poderosa na identificação de espécies conhecidas e na descoberta de novas espécies”, conclui.
No trabalho com a bioacústica é possível notar diferenças muito claras em algumas características, como a pulsação ou a ausência dela (que dá uma ideia de zumbido ou assobio, respectivamente), ou mesmo no padrão de emissão desses sons, produzidos como notas isoladas ou em séries de notas
Estima-se que pelo menos 50% das espécies desse grupo ainda não foram descobertas
Pedro Peloso/Arquivo Pessoal
Alerta para conservação
As descobertas dos pesquisadores não só aumentaram a lista de espécies da Amazônia, mas também acenderam o alerta para uma questão importante. “O estudo tornou ainda mais evidente o fato de que a maior parte da história dessas pequenas rãs está associada à Amazônia oriental e na região de contato dessa porção da Amazônia com o Cerrado. Isso tem um impacto enorme na conservação dessas espécies, pois é exatamente nessa região de transição entre biomas que se observam as maiores taxas de desmatamento”, explica Leandro.
“Essa infeliz coincidência faz um alerta sobre o futuro dessas rãs, que possuem origens evolutivas diretamente relacionadas à região e são típicas e dependentes de ambientes florestais na Amazônia. Por isso, as descobertas das novas espécies é um passo importante para que discussões acerca das ações e políticas de conservação sejam organizadas”, diz.
Através de análises integrando a variação genética dessas espécies no espaço e no tempo nós conseguimos inferir que os principais rios da região amazônica parecem ser importantes na manutenção dos padrões de distribuição dessas espécies, mas estão pouco relacionados à origem delas
Pesquisadores descobrem seis novas espécies de rãs na Amazônia
