
Terceira reportagem da série “Novas Definições” discute importância do DNA na contaminação e entrevista pesquisadores com estudos em desenvolvimento. Um vírus é um microrganismo sem célula que precisa de uma para se reproduzir. Na busca por encontrar essa estrutura, ele invade os seres vivos e tenta se infiltrar em uma célula em funcionamento. É nesse simples trajeto percorrido que a capacidade de defesa do organismo, as alterações na parede celular ou até a presença de sistemas de combate aos vírus já instalados definirão se a infecção será bem sucedida.
Todos esses fatores de proteção sofrem influências de diversos elementos que compõem aquele ser humano. No início da pandemia, a idade, a presença de doenças cardiovasculares, problemas respiratórios e até diabetes foram apontados como fatores de alerta, já que poderiam dificultar o combate do organismo ao vírus. Mas o que explicaria um idoso centenário assintomático e jovens não resistindo à doença? Ou a esposa sem comorbidades ter se contaminado e o marido asmático não?
É possível que variações genéticas tornem pessoas mais vulneráveis a COVID-19 sejam encontradas em genes ligados a sistema imunológico
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É nas contradições na forma de manifestação do vírus que os cientistas buscam desvendar as variações do genoma. “Genoma significa o DNA total existente em cada célula de um indivíduo. O genoma de cada espécie biológica é único e característico. As pequenas variações resultam em diferenças físicas e metabólicas. Além disso, parte das variações pode ter efeitos no risco para doenças”, explica a professora do Departamento de Genética da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Maria Luiza Petzl-Erler.
Ela, assim como diversos times de pesquisadores brasileiros, estuda as causas genéticas-hereditárias que provocam diferenças de vulnerabilidade, gravidade e sintomas da COVID-19. A pesquisa, liderada pela Rede Genômica do Estado do Paraná, analisa o genoma de centenas de pacientes de COVID-19 comparando formas leve, moderada e grave. “Para detectar as variações genéticas que importam quase sempre é necessário comparar grupos numerosos, de centenas ou mesmo milhares de pessoas”, destaca a pesquisadora.
Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, também é uma das instituições responsáveis por pesquisas com a COVID-19
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O geneticista Wilson Araújo da Silva Filho, da USP de Ribeirão Preto, também compõe o mesmo grupo de trabalho de Maria Luiza. Segundo ele, apesar de sabermos que ao variar os grupos de pessoas é possível observar diferenças no comportamento de todas as doenças conhecidas, a pesquisa sobre o coronavírus poderá responder duas perguntas-chave: “quais são os fatores associados a maior ou menor infecção e o que há no indivíduo que explique a evolução clínica variada?”.
Para solucionar questões semelhantes, Lygia da Veiga Pereira, pesquisadora do Instituto de Biociências da USP e Mayana Zatz, diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, mudaram o foco de suas pesquisas. “No trabalho com células tronco, passamos a produzir células para infectá-las com o vírus e descobrir compostos que funcionem na manifestação deles. Já no ‘Projeto DNA do Brasil’, vamos sequenciar o genoma de 1.200 indivíduos e identificar fatores genéticos que predispõem as pessoas a terem uma doença mais grave ou mais leve”, explica Lygia da Veiga Pereira.
Análises do DNA de pacientes do novo Coronavírus devem demorar anos até que possam apresentar resultados conclusivos e consolidados
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No caso da pesquisadora Mayana Zatz, o interesse pela forma com que pessoas portadoras da mesma mutação genética tinham formas diferentes das doenças sempre foi um fator motivador dos estudos. Ela também já investigava o genoma de pessoas acima de 60 anos e até de centenários para entender os fatores que favoreciam a vida saudável e, com a chegada da COVID-19, esse foco de trabalho se tornou precioso para desvendar os rumos da doença.
“Colhemos materiais de autópsia e amostra de casais discordantes (onde um teve a doença com todos os sintomas e o outro não teve absolutamente nada). Agora contamos com mais de 300 amostras, sendo 87 desses casais discordantes e 6 indivíduos centenários”, ressalta.
A pesquisa agora busca aumentar a amostra de dados sobre centenários e gêmeos que foram expostos igualmente ao vírus. Os voluntários podem se inscrever pelo e-mail [email protected]
Análises de mesmo caráter feitas por grupos internacionais recentemente descobriram que portadores do grupo sanguíneo A estavam associados a um risco maior de infecção pelo novo coronavírus, enquanto o grupo O possuía um risco reduzido. O sangue em si não é a diferença, mas sim a forma com que esse sistema tem efeitos na ação de proteínas e até de plaquetas.
Entretanto, pesquisas lideradas pelo laboratório de Mayana Zatz compararam indivíduos com e sem sintomas e não detectaram influências de seus grupos sanguíneos. Diante desse cenário, Maria Luiza Petzl-Erler faz um alerta: “a diferença de risco entre os tipos sanguíneos é pequena e que, com base neles, não é possível saber se uma pessoa terá ou não a forma grave da doença”.
Análise genética de pacientes com Covid-19 sugeriu que o tipo sanguíneo poderia influenciar na gravidade da doença
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Os especialistas esperam que futuras descobertas mais abrangentes permitam identificar pessoas de altíssimo risco para que adotem cuidados mais rigorosos quanto à exposição ao vírus. Compreender a manifestação da doença com relação à genética será também uma forma de promover soluções, como pontua Lygia da Veiga Pereira: “A gente conhece uma variação genética que torna a pessoa resistente ao HIV (vírus da AIDS). Pode ser que exista uma variação genética no caso da COVID-19. Outro aspecto importante dessas pesquisas é entender a interação do vírus com o ser humano e, com isso, desenvolver mais terapias”.
Segundo Mayana Zatz, os estudos feitos no Brasil sobre a COVID-19 buscam detectar os genes de risco e de resistência e reprogramá-los, a partir do sangue de pessoas assintomáticas ou de centenários resistentes, para produzir linhagens celulares. Elas serão infectadas pelo SARS-Cov-2 em laboratórios de máxima segurança e, assim, será possível a avaliação de como o vírus infecta diferentes tecidos. Mas a busca não é apenas de respostas para o coronavírus, de acordo com a pesquisadora, o estudo do genoma é uma ferramenta importante para quebrar com “padrões” em bancos de dados sobre as doenças mundiais.
Há hipóteses de que gene capaz de permitir que vírus entrem na célula para se replicar sejam responsáveis pelas variações na manifestação da doença
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“Vamos publicar um outro trabalho em breve onde o centro do Genoma Humano e de células-tronco da USP sequenciou os genomas de 1.200 pessoas saudáveis com mais de 60 anos. Encontramos mais de um milhão de variantes que não estavam escritas nos bancos, o que mostra a importância de se estudar populações miscigenadas como as nossas. Estamos vendo que há mutações descritas como doenças genéticas que não se manifestam nas nossas populações. Certamente o estudo do genoma vai revolucionar a medicina”, define Mayana Zatz.
Lygia da Veiga Pereira ainda acrescenta: “a gente está vivendo um momento histórico onde a tecnologia de sequenciamento permite a coleta de dados relacionados a milhões de pessoas. Com esse número, a gente vai ficando cada vez mais capaz de fazer essas descobertas. Mas, de uma forma geral, os resultados serão muito precisos para pessoas de ancestralidade branca, porque 80% dos genomas são europeus. E daí a necessidade de incluir outras ancestralidades, de outras populações”, conclui.
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