Por trás das máscaras: o que aprendemos sobre a transmissão de doenças?


Higienizar as mãos e evitar aglomerações são hábitos tão importantes quanto a barreira criada pelas máscaras; “modo sobrevivência” também precisa de atenção. Pessoas devem respeitar orientações médicas para evitar transmissão da COVID-19
Giuliano Gomes/PR Press
O ano de 2020 tem sido cheio de desafios: o mundo enfrenta um vírus ainda pouco conhecido, que já matou mais de 848 mil pessoas. Dos que se recuperaram, muitas são as histórias de superação. As lições são duras e trazem uma série de reflexões, como por exemplo, a responsabilidade em manter a segurança pessoal e do próximo a partir de gestos simples.
Frases como “usar a máscara salva vidas” são repetidas inúmeras vezes ao longo dos dias, por meses consecutivos. Mas será que, a partir de agora, esse será um item comum e obrigatório?
Uso de máscara passa a ser obrigatório em todo o estado de SP
Marcos Serra Lima/G1
Em países asiáticos, o uso das máscaras é um hábito antigo, adotado muito antes da chegada do novo coronavírus. No entanto, os costumes não devem ser comparados aos dos brasileiros, uma vez que são realidades extremamente diferentes. “Em lugares como a China e o Japão a máscara é muito utilizada para conter a transmissão de vírus respiratórios, como os da gripe. Com o inverno rigoroso e as baixas temperaturas, a população aposta em medidas protetivas como essa para evitar o contágio”, explica Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp.
“Aqui no Brasil, ou mesmo na Europa, já não vemos o uso rotineiro das máscaras. Apesar de termos números elevados de casos graves causados pelo vírus da gripe, não recomendamos rotineiramente esse tipo de proteção, possivelmente porque para a gripe já existe vacina”, detalha.
Transmissão da Covid-19 pode ocorrer a partir das gotículas de saliva
Wagner Magalhães/G1
Transmissões
Doenças transmitidas pelas pessoas e por alimentos, através da contaminação de rede de água e de esgoto, são as mais conhecidas e preocupantes. Dessas, as que são transmitidas pelo contato entre os homens ou mesmo pelo ar devem ser divididas em duas categorias: transmissão por gotículas e por aerossóis.
“Explicando de forma bem simples, a diferença básica entre elas é o tamanho das partículas: as gotículas são maiores e mais pesadas, por isso, não vão muito longe. Elas atingem distâncias de no máximo 1,5 metros e depois caem na superfície”, comenta.
Já as partículas menores, classificadas pela transmissão por aerossóis, atingem distâncias maiores e, por serem muito leves, podem ficar suspensas, como ‘nuvens’.
A OMS considera que a transmissão do vírus ocorre em gotículas suspensas no ar, disseminada principalmente por pequenas secreções expelidas pelo nariz e pela boca das pessoas infectadas, que logo caiam no chão. Cientistas de todo o mundo publicaram um documento que ressalta que partículas sólidas ou líquidas muito finas e quase imperceptíveis do vírus ficam em suspensão no ar por horas
Retorno à rotina traz incertezas: como lidar com o medo do invisível?
Marcos Serra Lima/G1
Raquel explica a importância de entender as maneiras de transmissão para, então, reconhecer os métodos realmente eficazes de proteção. “Como vimos, as partículas têm tamanhos diferentes, ou seja, a máscara que usamos atualmente é uma barreira para a gotícula, que é a forma mais importante da Covid-19, mas talvez não seja suficiente para evitar o contato com os aerossóis”, destaca a médica consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.
Orientação do uso de máscaras é importante para conter a COVID-19, mas hábitos de higiene também são necessários
Marcos Serra Lima/ G1
Além disso, a forma como as doenças atuam no corpo também diz muito sobre as alternativas de prevenção. “Você pode questionar, por exemplo, porque a classe médica não indicou uso de máscaras no surto de sarampo. É que nesse caso a pessoa infectada começa a transmitir a doença antes mesmo de apresentar sintomas. Há uma transmissão muito importante e significativa nesse período, diferente da Covid-19, que o assintomático também pode transmitir, mas por um tempo muito menor”.
Diante dessa realidade, fica evidente a necessidade de seguir as regras estipuladas pela classe médica quanto à contenção dessa nova doença. “Para a Covid as máscaras são indicadas, principalmente por ainda não se ter uma vacina contra o vírus. No entanto, temos que entender que o método básico para evitar essa e outras doenças é, além do uso correto de máscaras, a higiene frequente das mãos, prática que deveria ser um costume entre as pessoas do mundo inteiro. A população não deve encarar o uso correto da máscara com o único método de proteção: é preciso também higienizar as mãos com frequência e manter o distanciamento social.
Temos que nos preocupar com locais cheios de gente, sem ventilação. O risco é muito maior em situações como essa. A lição que fica é evitar esse tipo de contato e garantir o álcool em gel sempre e o uso correto de máscaras faciais, em todas as ocasiões
Profissionais de saúde lidam com medo e tensão
Fantástico
Medo x proteção
As incertezas sobre o tratamento e a vacina contra o novo coronavírus preocupam muita gente, no entanto, é necessário manter o controle das emoções para garantir uma vida saudável, mesmo durante uma pandemia.
De acordo com o neurocientista e neuroeducador Alexandre de Rezende, estamos vivendo no modo sobrevivência, quando nosso cérebro entende que devemos tomar medidas extremas para nos proteger, gerando desespero. “É uma das armadilhas da mente que costumo chamar de ‘catastrofização’, a famosa tempestade em copo d’água. Precisamos entender que há outras maneiras de lidar sem entrar no modo sobrevivência. O segredo é saber lidar com os pensamentos”, destaca.
Álcool gel é item indispensável durante e pós pandemia
Divulgação
O equilíbrio, de acordo com o especialista, mistura responsabilidade, conhecimento e gestão das emoções. “Devemos respeitar a orientação do uso da máscara, entendendo que é uma medida temporária, e nos adaptar aos processos básicos de higiene, que já deveriam ser hábitos. A partir do momento que a situação se normalizar, precisamos entender que algumas barreiras não serão mais necessárias”, comenta Alexandre, que faz alguns alertas.
“Estar bem informado ajuda nesse processo de se manter em equilíbrio, sem entrar em desespero. No entanto, essa avalanche diária de informações negativas não é benéfica. Por isso, procure alguém de confiança, um especialista no assunto que possa esclarecer suas dúvidas e mantê-lo tranquilo e informado”, diz.
Nesse momento temos que contar com apoio de pessoas que são importantes para a gente, para que aos poucos comecemos a caminhar novamente para a realidade. A chave é cuidar da saúde mental
Higiene, distanciamento social e o uso de máscaras são as melhores formas de se prevenir contra o coronavírus
Wagner Magalhães/G1
O professor doutor em neurociência ressalta outras armadilhas da mente que podem prejudicar o entendimento da realidade, de modo a gerar pânico, transtornos e traumas. “Precisamos evitar o ‘filtro mental’, hábito que temos em ver só o lado negativo das coisas. A ‘leitura da mente’, quando tentamos tirar conclusões sem ter provas, também precisa ser combatida, assim como a ‘superexigência’: sair da rotina e fugir do que foi planejado não deve ser encarado como um problema”, explica.
“Nosso cérebro é muito prático. Ele recebe uma informação, gera um pensamento que provoca uma emoção e resulta em um comportamento. Uma dica valiosa para manter o equilíbrio é se questionar ‘como estou lidando com isso?’, ‘será que toda essa situação gerou um trauma ou eu consegui entender que é uma realidade momentânea e tudo vai passar?’. Se eu consigo identificar a forma como estou pensando, consigo desafiar esse pensamento e encontrar outras maneiras e encarar melhor a realidade”, completa o especialista.
Evitar aglomerações é medida eficaz contra transmissão de várias doenças
Jefferson Barbosa/EPTV

By Midia ABC

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