
Adaptação foi a resposta de alguns comerciantes para segurar postos de trabalho na cidade. Cabeleireira e empresária Solange Xavier Dias agiu rápido e deu uma virada na direção de seu salão de beleza
Isabel Franson
A cabeleireira e empresária Solange Xavier Dias, de 46 anos, agiu rápido na quarentena contra a Covid-19 e deu uma virada na direção de seu salão de beleza, literalmente. O empreendimento contornou a quadra e foi para a rua paralela, uma esquina à frente, no sentido Centro/praia, no bairro Gonzaguinha, em São Vicente. O local era a residência da empreendedora, enquanto o antigo endereço era alugado.
“Era uma coisa que eu já vinha pensando e querendo fazer. Só não havia tomado a iniciativa, ainda”, lembra. Como muitos comerciantes que se reinventaram na pandemia, Solange acabou levando o trabalho para dentro de casa. “Aqui é minha casa. Ou era”, ri. “Acabei me mudando para um bairro mais afastado, mas mantive o endereço do salão próximo ao antigo. Foram 19 anos na outra esquina e era bem movimentado. Mas aqui não pago aluguel”.
A locação do espaço antigo foi uma das contas que Solange riscou da lista sem dor. Já na folha de pagamento da equipe, as decisões foram mais difíceis. “Contando o salão e a barbearia, eram 35 pessoas, quase todas de São Vicente, um ou outro de Praia Grande. Acabei demitindo oito ou nove. A gente sente”.
Apesar da clientela fixa, Solange estima que 20% dos fregueses vinham do público que circula nas ruas do Centro. Com a quarentena, esse fluxo caiu, e mesmo quem vinha de casa já não vem mais. “As pessoas perderam emprego, né? O setor de beleza acaba não sendo um serviço de primeira necessidade. Quando a família precisa escolher entre o sustento e a estética, não há dúvida”.
Questionada sobre o que a faria voltar a contratar, a empresária explica que não depende só dela. “Eu quero oferecer emprego, mas o dinheiro precisa circular. Conto ainda com a retomada econômica das minhas clientes para que o salão volte a operar a todo vapor. O que espero do próximo governo é um trabalho dedicado a isso, visando a recolocação do povo no mercado de trabalho”.
Perdeu vizinhos
Tânia Mara Santos de Oliveira, de 55 anos, é outra mulher à frente no comércio vicentino. Dona de uma copiadora com mais de três décadas de existência, na Rua Frei Gaspar, no Centro, ela também espera projetos e investimentos no setor.
“Eu não precisei demitir ninguém. Acabou que duas funcionárias saíram, mais por medo de se contaminarem com a doença. Mas, agora, também não vou reabrir as vagas tão logo”, conta.
Sua atividade está diretamente relacionada ao movimento, principalmente em bancos. A loja é referência para quem precisa imprimir um boleto ou copiar um documento. Mas, até esse público diminuiu.
“O Centro é formado por gente da cidade, que vive e trabalha aqui. Muitos perderam o emprego. Vizinhos fecharam, quem vendia roupas, acessórios… Apenas com políticas de revitalização e incentivos fiscais o pessoal poderá voltar a considerar abrir estabelecimentos aqui”.
Copiadora de Tania Mara Santos de Oliveira
Isabel Franson
Retomada exige planejamento
O Cadastro Geral de Emprego e Desemprego (Caged) registrou, de janeiro a julho de 2020, uma queda de 1.369 vagas de emprego formal em São Vicente, nos setores de serviços, construção civil, comércio, indústria, entre outros. No ano passado, o saldo foi positivo: um total de 10.304 admissões contra 10.235 desligamentos.
De acordo com o economista-chefe da Análise Econômica Consultoria, André Galhardo, a melhora na próxima gestão depende exclusivamente da capacitação de profissionais e abertura para novos investimentos. “Não dá mais para a gente esperar que o turismo das cidades litorâneas vá carregar a economia nas costas e empregar a maior parte dos trabalhadores. Até porque, no caso de São Vicente, é uma cidade grande, que poderia participar ativamente em outros setores”.
O economista, que trabalha prevendo cenários, estima queda de 5% a 6% do PIB do município até o fim do ano, em comparação com dezembro de 2019. Falando da Baixada Santista como um todo, Galhardo acredita em uma perda de até R$ 3 bilhões.
“Educação e emprego andam juntos. Não adianta abrir postos de trabalho sem capacitar o efetivo para tais vagas. Mas, também, seria falho investir em cursos, alfabetização digital, preparar os jovens da cidade só para ‘perder’ tal mão de obra qualificada porque a cidade não oferece opções”.
Eleições 2020
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