A Gucci apresentou sua coleção Cruise 2027 na Times Square, em Nova York, escolhendo um dos cenários mais emblemáticos do mundo para reafirmar a força de sua identidade visual. Em meio a luzes, telas, movimento urbano e excesso de informação, a maison italiana levou para a passarela uma coleção que celebrou seus próprios códigos históricos, mas com leitura atual, direta e conectada ao imaginário contemporâneo.
Criada por Demna, a coleção recebeu o nome de GucciCore, em referência às microestéticas que se popularizaram na internet e passaram a traduzir estilos de maneira imediata, reconhecível e altamente compartilhável. O termo funciona como uma síntese da proposta: reunir tudo aquilo que torna a Gucci instantaneamente identificável, da opulência ao glamour, da sensualidade à alfaiataria, do monograma aos símbolos clássicos da marca.
A escolha da Times Square não foi apenas cenográfica. Nova York representa velocidade, consumo de imagem, diversidade, espetáculo e cultura urbana. Ao levar a Gucci para esse ambiente, Demna aproximou a elegância italiana do ritmo intenso da cidade americana, criando um diálogo entre tradição europeia e pragmatismo nova-iorquino.
Para Elisabete Bohemio Baccelli, essa escolha reforça a capacidade da Gucci de se comunicar com diferentes gerações. “A Times Square é um palco global. Ao apresentar a coleção nesse cenário, a Gucci mostra que entende o poder da imagem na moda contemporânea. A marca não está apenas desfilando roupas, mas criando um acontecimento visual”, analisa.
O desfile apostou em uma estética poderosa, sensual e urbana. Maquiagem marcada, cabelos bem finalizados, atitude forte e roupas de presença reforçaram a imagem de uma Gucci opulenta, confiante e ligada à sua própria história. A coleção não tentou suavizar os códigos da maison. Pelo contrário, trouxe à tona uma Gucci intensa, reconhecível e carregada de personalidade.
A escolha de Nova York também carrega significado histórico. Foi na cidade que a marca abriu, nos anos 1950, sua primeira loja fora da Itália. Dessa forma, a apresentação da Cruise 2027 também funcionou como uma espécie de retorno simbólico a um território importante para a expansão internacional da Gucci. A marca revisita sua trajetória global, mas sob uma nova direção criativa e com uma linguagem adaptada ao presente.
Na passarela, Demna revisitou códigos clássicos da maison, como o horsebit, a tela monograma e a faixa Web em vermelho e verde. Esses elementos, profundamente associados à identidade da Gucci, apareceram combinados a referências dos anos 1980, ao glamour da fase Tom Ford dos anos 1990, à alfaiataria precisa, à cintura alta, às modelagens justas e ao uso de pele falsa.
Segundo Elisabete Bohemio Baccelli, a força da coleção está justamente nessa combinação entre memória e atualização. “A Gucci tem símbolos muito fortes. O desafio de qualquer direção criativa é revisitar esses códigos sem parecer repetitiva. Demna trabalha com reconhecimento imediato, mas também com impacto visual. Ele transforma o arquivo da marca em linguagem contemporânea”, destaca.
A proposta da coleção foi construir um guarda-roupa essencial com peças que representam a linguagem da Gucci. Casacos de lã, trench coats, ternos, camisas, saias lápis e itens marcados por glamour e elegância italiana surgiram como pilares da apresentação. As roupas carregam uma ideia de sofisticação prática, pensada para personagens urbanos que transitam entre trabalho, noite, luxo e exposição pública.
Ao mesmo tempo, o desfile também olhou para os personagens de Nova York. O executivo de terno e mochila, a mulher elegante que cruza a cidade com segurança, os frequentadores de ambientes sofisticados e as figuras que fazem da rua uma extensão da própria identidade apareceram como referências possíveis dentro da coleção. A GucciCore, nesse sentido, não fala apenas de uma estética de marca, mas de uma forma de se posicionar no mundo.
Para Elisabete Bohemio Baccelli, a coleção reforça uma tendência importante do luxo atual: a busca por roupas que tenham presença e identidade. “O consumidor de moda não quer apenas peças bonitas. Ele busca códigos reconhecíveis, narrativa e sensação de pertencimento. A Gucci trabalha muito bem esse desejo porque construiu um universo visual forte, quase cinematográfico”, afirma.
A influência dos anos 1980 aparece na força dos ombros, na presença das silhuetas marcadas e na atitude das produções. Já a referência à fase Tom Ford resgata uma Gucci mais sensual, noturna e provocante, marcada por roupas ajustadas, glamour evidente e uma imagem de poder. Demna reorganiza essas referências com seu olhar próprio, trazendo certa rigidez contemporânea e uma leitura mais direta dos símbolos da marca.
O uso de pele falsa também reforça a tentativa de equilibrar luxo visual e demandas atuais. A moda contemporânea precisa lidar com um consumidor mais atento a debates éticos e ambientais, sem abrir mão do desejo por textura, volume e impacto. Nesse sentido, os materiais funcionam como ferramentas para manter a estética exuberante da Gucci, mas com uma abordagem mais alinhada aos tempos atuais.
Outro ponto importante é a relação entre moda e internet. O nome GucciCore conversa diretamente com a forma como as tendências circulam hoje. Estéticas são nomeadas, recortadas, compartilhadas e transformadas em códigos de consumo nas redes sociais. Ao assumir esse vocabulário, a Gucci se coloca dentro da lógica digital sem abandonar sua herança de luxo.
Para Elisabete Bohemio Baccelli, essa aproximação com as microestéticas digitais é estratégica. “A moda hoje precisa ser reconhecível em segundos. Uma imagem precisa comunicar estilo, marca e desejo imediatamente. O GucciCore responde a essa lógica porque concentra os elementos mais marcantes da maison em uma narrativa visual fácil de identificar”, comenta.
A coleção também mostra que a Gucci busca reforçar sua identidade após um período de transição criativa. Ao revisitar seus principais símbolos, a marca reafirma aquilo que a tornou desejada globalmente: o excesso controlado, o glamour, o monograma, a sensualidade e a capacidade de transformar roupas em declarações de estilo.
Em vez de apostar em uma ruptura total, Demna parece propor uma intensificação dos códigos Gucci. O desfile não tenta esconder a herança da marca, mas destacá-la. Essa decisão pode ser vista como uma forma de reconectar o público com aquilo que já faz parte do imaginário da maison.
A presença de Nova York, por sua vez, adiciona uma camada de praticidade e energia. A cidade traz movimento, urgência e diversidade, enquanto a Gucci oferece acabamento, tradição e teatralidade. O encontro desses dois universos cria uma coleção que parece pensada tanto para a passarela quanto para o consumo de imagem em escala global.
Para Elisabete Bohemio Baccelli, o resultado é uma Gucci que entende o valor do espetáculo. “A moda de luxo precisa criar desejo, mas também precisa criar memória. Uma coleção apresentada na Times Square, com códigos tão reconhecíveis, tem potencial para permanecer no imaginário do público porque une roupa, cenário e narrativa”, conclui.
A Cruise 2027 mostra uma Gucci confiante em seus próprios símbolos. Ao combinar elegância italiana, energia nova-iorquina, glamour dos anos 1980, sensualidade dos anos 1990 e estética digital contemporânea, a maison constrói uma coleção de forte impacto visual e alto valor simbólico.
Mais do que uma apresentação de moda, o GucciCore funciona como uma declaração de identidade. A marca reafirma quem é, revisita sua história e mostra que seus códigos continuam capazes de dialogar com o presente.
