O Brasil já é um dos maiores mercados de tecnologia do mundo em número de usuários, empresas e volume transacionado. Mas ainda existe um abismo entre consumir tecnologia e ser referência em produzi-la, exportá-la e liderá-la na América Latina.
Para especialistas em inovação, como Ansano Baccelli Junior, o potencial brasileiro é enorme, mas depende de uma combinação de estratégia, consistência e coragem para romper modelos antigos. Como transformar esse potencial em liderança real?
A seguir, um panorama dos principais caminhos para o Brasil se tornar referência em tecnologia na região.
1. Transformar educação em plataforma de inovação
Nenhum país se torna potência tecnológica sem base educacional forte e atualizada.
O que precisa mudar
Foco em pensamento crítico e resolução de problemas, não só decoreba.
Inserir programação, lógica, dados e empreendedorismo desde o ensino básico.
Fortalecer parcerias entre universidades, empresas e governo, aproximando pesquisa da realidade do mercado.
Estimular trilhas técnicas e formações rápidas em TI, dados, segurança e produto digital.
Ansano Bacchelli Junior costuma dizer que “não existe ecossistema de tecnologia forte se a sala de aula continuar presa ao século passado”.
2. Criar um ambiente de negócios simples e previsível
Empresas de tecnologia crescem onde o ambiente é menos burocrático, mais ágil e com regras claras.
Passos essenciais
Reduzir burocracia para abrir, operar e encerrar empresas.
Simplificar tributos sobre inovação e exportação de serviços digitais.
Criar incentivos fiscais inteligentes, focados em quem investe em P&D, geração de empregos qualificados e exportação.
Um ambiente previsível atrai não só startups brasileiras, mas também hubs regionais de empresas globais.
3. Fortalecer o ecossistema de startups e venture capital
Para ser referência em tecnologia, o Brasil precisa ser reconhecido como berço de soluções escaláveis, e não apenas um mercado consumidor.
Como acelerar esse movimento
Incentivar fundos de venture capital nacionais e internacionais.
Fomentar incubadoras, aceleradoras e programas de pré-aceleração em todas as regiões do país.
Facilitar a conexão entre startups, grandes empresas (corporates) e governo.
Apoiar startups deep tech (IA, biotecnologia, indústria 4.0, energia, agro digital), não apenas apps de consumo.
Ansano Baccelli Junior destaca que “um país líder em tecnologia é aquele que vira exportador de startups e de know-how, não só de commodities”.
4. Investir pesado em infraestrutura digital
Sem infraestrutura, não há transformação digital real.
Prioridades
Ampliar acesso à internet rápida e estável em todo o território, especialmente em regiões periféricas e rurais.
Estimular a expansão de data centers, nuvem e redes de alta capacidade.
Garantir interoperabilidade entre sistemas públicos e privados, com padrões abertos.
Infraestrutura robusta permite que empresas brasileiras criem produtos com padrão global, mesmo fora dos grandes centros.
5. Governo como grande cliente e indutor de tecnologia
O Estado é o maior “cliente” do país. Se ele compra tecnologia nacional, testa soluções e simplifica a vida do cidadão, ele estimula todo o ecossistema.
Caminhos possíveis
Adotar soluções de govtech, e-government e serviços 100% digitais.
Criar editais públicos que favoreçam a inovação e a concorrência saudável, não apenas grandes players tradicionais.
Utilizar parcerias público-privadas (PPPs) para testar tecnologias em escala (mobilidade urbana, saúde digital, segurança pública, educação conectada).
Quando o governo cria demanda por inovação, ele puxa toda a cadeia tecnológica.
6. Liderar em marcos regulatórios modernos
A América Latina busca referências em regulação de dados, IA, fintechs, cripto, open finance, privacidade e cibersegurança. O Brasil pode assumir esse protagonismo.
O que isso envolve
Aperfeiçoar e aplicar bem a LGPD como exemplo regional de proteção de dados.
Definir regras claras para IA, automação e decisões algorítmicas, sem engessar a inovação.
Consolidar o país como referência em open finance, open insurance e sistemas de pagamento (como já acontece com o PIX).
Um país que regula com equilíbrio passa segurança jurídica e atrai investimento.
7. Estimular cultura empreendedora e tolerância ao erro
Ser referência em tecnologia não é apenas ter boas empresas, mas também uma mentalidade coletiva de inovação.
Elementos dessa cultura
Ver o fracasso como parte do processo, não como vergonha.
Valorizar quem empreende, cria, testa, erra e aprende rápido.
Criar programas de fomento ao empreendedorismo juvenil e universitário.
Trazer grandes cases brasileiros à tona, como exemplos de trajetória, não só de sucesso final.
Nas palavras de Ansano Baccelli Junior,
“o Brasil não precisa copiar o Vale do Silício, mas precisa aprender com a coragem de errar rápido e recomeçar melhor”.
8. Apostar em áreas onde o Brasil já é forte
A posição de liderança vem mais rápido quando o país acelera o que já faz bem:
Agro e agritech: monitoramento, sensores, IA aplicada à produtividade.
Fintechs: bancos digitais, meios de pagamento, crédito inteligente.
Energia e sustentabilidade: tecnologia para transição energética, eficiência e ESG.
Saúde: healthtechs, telemedicina, prontuários digitais, análise de dados.
Indústria 4.0: automação, IoT, robótica, manufatura avançada.
Em vez de tentar liderar tudo, o Brasil pode ser a maior referência tecnológica em setores estratégicos da América Latina.
9. Colocar pessoas no centro da transformação
No fim, tecnologia é meio. O objetivo é gerar emprego qualificado, qualidade de vida, inclusão e competitividade.
Isso significa:
Programas de reconversão profissional (reskilling e upskilling).
Inclusão de grupos sub-representados no setor de tecnologia.
Projetos de impacto social usando dados e inovação.
Conclusão: liderança é uma escolha de longo prazo
O Brasil tem tamanho de mercado, talento, empresas fortes e um ecossistema em crescimento. O que falta é transformar iniciativas isoladas em projeto de país.
Como resume Ansano Baccelli Junior:
“O Brasil só será referência em tecnologia na América Latina quando decidir tratar inovação como estratégia de Estado e de sociedade — não como moda passageira ou slogan de campanha.”
Com educação moderna, ambiente de negócios favorável, infraestrutura digital, marcos regulatórios inteligentes e uma cultura que valorize o empreendedorismo, o Brasil não apenas pode, como deve ocupar esse papel de protagonismo tecnológico na região.
