
André Mezzete foi solto nesta quarta por decisão da Justiça após ser preso na sexta suspeito de tentar roubar soldado de folga na Zona Norte. Entregador nega crime. Vídeos mostram policial militar agredindo e xingando ele. Juíza soltou investigado por causa de informações conflitantes. Motoboy agredido por PM e preso acusado de roubo é solto; ele se diz vítima de racismo
‘É o tom da pele?’, perguntou o motoboy André Andrade Mezzete, nesta quarta-feira (2), após ser solto pela Justiça e acusar de racismo o policial militar Felipe da Silva Joaquim, que o agrediu e prendeu por uma suposta tentativa de roubo, no último dia 28 de agosto, na Zona Norte de São Paulo.
Vídeos gravados por moradores e que circulam nas redes sociais registraram o momento que o soldado, que tem 30 anos e estava à paisana e de folga, aborda o entregador de aplicativos, de 29, com violência e xingamentos no Tremembé.
A pedido da defesa de André, essas imagens foram analisadas pela Justiça, que decidiu libertar o motoboy após cinco dias preso. A juíza Tania da Silva Amorim Fiuza, do Departamento de Inquéritos Policiais (Dipo) do Tribunal de Justiça (TJ) tem dúvidas sobre o crime, que André também nega ter cometido.
“Não posso mais ser pretinho em cima de uma moto?”, indagou André aos jornalistas que o aguardavam do lado de fora do Centro de Detenção Provisória (CDP) do Belém. Na recepção, ele ganhou abraços da namorada, da irmã, de uma amiga e do seu advogado.
Na gravação da violenta abordagem, o motoboy aparece falando que havia sido detido pelo PM somente porque fumava um cigarro de maconha na Rua Marco Rutini, no Tremembé.
Na tarde desta quarta, André contou como foi a abordagem e que também foi agredido por outro homem desconhecido, que não aparece nas imagens.
“Eu fiz uma entrega numa rua, parei numa rua próxima, apareceu esse PM do nada. Ele passou por mim, voltou. Eu penso assim: ele tinha todo o direito de dúvida. Eu tava numa rua parado, ele tinha o direito de dúvida. Mas o certo era ele perguntar ‘você tá fazendo o que?, você tá trabalhando?’, pega o número da pizzaria, vê se eu era motoboy mesmo. Ele já chegou me acusando. É o que?”, disse André, que depois voltou para sua casa para descansar.
Motoboy é recebido pela irmã e pela namorada ao deixar CDP onde ficou preso em SP
Divulgação/Arquivo pessoal
Para a magistrada, as informações apresentadas pelo soldado no boletim de ocorrência registrado na delegacia são conflitantes e não justificam manter o motoboy preso.
“Desta forma, diante das informações conflitantes nos presentes autos, não é cabível a manutenção da prisão do averiguado, visto que há fundadas duvidas sobre a materialidade da suposta tentativa de roubo”, escreveu a juíza Tania na decisão.
Irmã e namorada do motoboy aguardam saída dele do CDP Belém, na Zona Leste de São Paulo
Zelda Mello/TV Globo
O vídeo ainda mostra o soldado apontando uma arma para o rosto do motoboy, dando coronhadas na sua cabeça, o arrastando, chutando, ofendendo, e o ameaçando. As imagens repercutiram negativamente na Polícia Militar, que determinou o afastamento preventivo de Felipe para que a Corregedoria da PM apure sua conduta na esfera administrativa.
O advogado Paschoal Caruso acusa o policial militar por abuso de autoridade e falsa comunicação de crime. “Agora ele vai para casa descansar”, disse o advogado após a saída de seu cliente da prisão.
O motoboy André Mazzete acusa soldado da PM de agredi-lo na Zona Norte de SP
Divulgação/Arquivo pessoal
O Ministério Público (MP) e a Secretaria da Segurança Pública (SSP) também analisam outros vídeos de abordagens feitas e gravadas pelo soldado Felipe durante seu trabalho na Ronda Ostensiva Com Motocicletas (Rocam) da PM.
O soldado participa de um canal nas redes sociais com mais de 300 mil inscritos, onde abordagens policiais são filmadas pelos próprios PMs. Segundo um especialista ouvido pela reportagem do SP1, policiais que filmam abordagens sem autorização da corporação e divulgam as imagens nas redes sociais podem responder por crime de invasão de privacidade.
PM e motoboy
O soldado escreveu na rede social que não agrediu o motoboy e só usou as técnicas de abordagem da PM
Reprodução/Redes sociais
A reportagem não conseguiu localizar o PM e nem sua defesa para comentarem o assunto. Nesta quarta, ao ser procurado, ele respondeu: “Eu não vou dar entrevista para vocês”.
Numa rede social, Felipe chegou a negar que tenha agredido o motoboy.
“Agora a pessoa tenta me roubar e eu recebo isso? Agora me fala no vídeo onde eu agredi ele? Em todo vídeo eu segui nosso treinamento”, escreveu o policial no Instagram.
Peritos e especialista em segurança ouvidos pelo G1 divergem do soldado. Eles analisaram as imagens e apontaram ao menos oito falhas que podem ter sido cometidas pelo policial militar de folga durante abordagem.
Nas imagens é possível ver o policial apontar a arma em direção a cabeça de André e dizer “um tiro na sua cara”. O suspeito estava desarmado e rendido, dizendo que havia usado droga em frente sua motocicleta, depois de ter feito uma entrega.
André compete como lutador de jiu jitsu e trabalha como entregador para complementar a renda. Ele já tem uma passagem criminal anterior por receptação de carro irregular. Foi condenado por esse crime em 2013, chegando a cumprir a pena com medida restritiva.
O soldado acusou o motoboy de fingir que estava armado para tentar assalta-lo. Felipe falou à Polícia Civil que sacou a arma e se identificou como policial. E que os dois entraram em luta corporal, quando André tentou pegar a pistola dele. E que devido a isso os dois se machucaram. O motoboy tem um ferimento na cabeça.
Vídeo que circula nas redes sociais mostra PM agredindo motoboy em São Paulo
‘É o tom da pele?’, diz motoboy ao ser solto e acusar de racismo PM que o agrediu e prendeu por suposta tentativa de roubo em SP
