
Escolha correta do lugar e da espécie são tarefas pré-plantio; iniciativa deve estar de acordo com as regras das prefeituras e com características do ecossistema local. Cliques de ipês colorem galeria do Terra da Gente
Dirceu Moisés Júnior/Ipê no TG
A Primavera é a estação da renovação da vida, afinal, muitas espécies da fauna se reproduzem nesse período. No entanto, para que o processo seja bem sucedido é necessário um ecossistema saudável com oferta de alimento e abrigo, tudo proporcionado pelas árvores.
Por isso, manter um ambiente arborizado dentro e fora das florestas é essencial para a manutenção da biodiversidade e essa pode ser uma tarefa de todos nós, mesmo em áreas urbanas. “As árvores são fundamentais para a regulação da temperatura, umidade e qualidade do ar. Além disso, fornecem alimentos, são locais de nidificação para as aves e verdadeiros refúgios em ambientes urbanos. As copas interceptam a água das chuvas, atuando positivamente no controle da erosão, e as raízes conduzem de forma segura a água de volta para o solo, minimizando o risco de enchentes”, explica a ecóloga Carolina Matos, diretora técnica do Centro de Desenvolvimento Tecnológico, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.
Árvores oferecem alimento e abrigo para diversas espécies de aves
Reginaldo dos Santos/TG
Nas cidades, os benefícios ainda se multiplicam. “As árvores minimizam a poluição sonora dos ambientes, criam barreiras de proteção contra o vento, reduzem a luminosidade excessiva e ainda garantem espaços agradáveis com sombra para descansarmos durante um passeio, ou até mesmo para estacionarmos o carro. Sem contar a beleza cênica que trazem para a paisagem urbana”, diz.
Diante de todas essas qualidades, não nos restam dúvidas sobre a importância de plantarmos árvores. No entanto, é preciso se atentar a várias questões. “É necessário conhecer as características das espécies que se deseja plantar e verificar se essas características condizem com o ambiente no qual se pretende fazer o plantio. Além disso, em ambiente urbano, é preciso seguir as recomendações da prefeitura em relação à arborização e ter em mente que as regras são diferentes para arborização de passeios públicos e de áreas internas dos imóveis”, destaca a especialista.
Toda pessoa deveria plantar ao menos uma árvore na vida e acompanhar seu desenvolvimento. É uma experiência enriquecedora! Mas para isso é preciso entender que não é qualquer árvore, não é de qualquer jeito e nem em qualquer lugar
Essa espécie difere das demais por não possuir flores muito chamativas
Giselda Person/TG
São muitas as opções de espécies que podem ser plantadas, cada uma com características biológicas únicas, no entanto, a “receita” para um bom plantio pode estar em um simples check list. “Antes de plantar se questione se essa é uma espécie nativa, que vai contribuir para a nossa biodiversidade, ou se é uma espécie exótica, com potencial de invasão que possa prejudicar outras espécies por competição. Ainda: ela oferece frutos para a avifauna, pólen e néctar para as abelhas nativas? É mais rústica ou exige mais cuidados? Como é seu ciclo de desenvolvimento?”, ressalta Carolina, que explica a importância de pesquisar sobre a espécie antes de realizar o plantio.
“Em São Paulo, por exemplo, temos inúmeras sibipirunas plantadas nas cidades. São árvores de grande porte com tempo médio de vida de 60 anos. Elas são espécies ótimas para a reprodução das abelhas nativas que usam o tronco oco como abrigo, no entanto, quando envelhecem, acabam caindo naturalmente e geram inúmeros problemas urbanos. Esse é um exemplo interessante para entendermos a importância de pensar no plantio a longo prazo, quais benefícios e possíveis prejuízos que aquela espécie pode gerar”, diz.
Mudas são plantadas por instituições, escolas e amantes da natureza
Arquivo TG
Quando questionada sobre as regras urbanas, a ecóloga destaca dicas simples como observar a largura da calçada, o diâmetro do tronco da árvore adulta na altura do peito, de 1,30 metros, e o espaço interno nas calçadas, que deve ficar livre para a passagem de pedestres. “Também é necessário reservar um canteiro de dimensões compatíveis com o porte da árvore para garantir o bom desenvolvimento das raízes, evitando construções de muretas e coberturas, para que a água da chuva possa infiltrar. As características da fiação elétrica, proximidade de esquinas, postes e placas de sinalização também devem ser observadas”, explica a especialista, que indica aos cidadãos do estado de São Paulo consultar as orientações do Manual Técnico de Arborização Urbana, desenvolvido pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo.
Confira dicas importantes para seguir antes do plantio
Arte/TG
Plantio e manutenção
Escolhidos lugar e espécie, o próximo passo é adquirir mudas e sementes de qualidade para ter indivíduos saudáveis. “Quanto maior for a muda plantada, maior a chance de sobrevivência. Costumamos recomendar o plantio de mudas com 1,5 metros de altura pois, quanto mais robusta, menos a planta vai sentir a transição do saquinho para o solo e mais preparada ela estará para enfrentar as interferências urbanas. Se for muito pequena a muda pode sofrer com predação de formigas e a raiz pode não estar madura suficiente para se embrenhar no solo e buscar água”, destaca Carolina.
Nesses casos, é necessário abrir uma cova no solo com profundidade e largura suficientes para acomodar o torrão da muda, acrescentado de terra adubada. Importante lembrar de retirar o saco plástico que envolve a planta antes do plantio.
Espécie de crescimento rápido, essa árvore chega a atingir 20 metros de altura
Giselda Person/TG
Chove chuva
Todo esse passo a passo deve ser feito após uma análise atenta ao clima, afinal, um bom período de plantio conta com chuvas frequentes. “Na Primavera se inicia a chamada ‘época das águas’, quando temos o retorno das chuvas mais abundantes, típicas do verão. O período é bom também pois há maior taxa de insolação, características que disparam os mecanismos de crescimento e reprodução das espécies. No entanto, é importante ter chuvas constantes, por isso a dica é ficar atento à previsão e realizar o plantio durante semanas mais úmidas”, explica.
O tempo seco é facilmente reconhecido pelas pessoas e, se essa for a realidade pós plantio, é importante avaliar alguns aspectos da árvore. “Além de perceber o tempo seco, observe se as folhas estão murchas, pois é um indício de que a planta necessita de água. Nesse caso, indicamos regar o solo e garantir a umidade suficiente para a espécies se desenvolver”.
A planta deve ser regada durante a manhã ou no final da tarde. Evite horários com forte incidência de sol, que podem provocar desidratação do espécime
Seu Durval planta mudas de árvores pela cidade de Araras
Edivaldo dos Santos/TG
Outra orientação valiosa é evitar o uso de produtos químicos para afastar pragas e insetos predadores. “As formigas são ameaças às árvores, mas é importante evitar os inseticidas, que podem provocar acidentes químicos com crianças, pets e também prejudicar as abelhas nativas. O mais indicado é utilizar bioiscas a base de ativos naturais e adubação verde, quando possível. Assim, garantimos harmonia entre as pessoas e as árvores que dividem o espaço urbano”, completa Carolina.
Obrigação com a natureza
Produtores rurais devem seguir às normas da Lei Federal nº12.651/2012 que prevê a restauração de Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais, de acordo com os passivos ambientais de cada propriedade. “A faixa de recomposição obrigatória das áreas varia de acordo com o tamanho e histórico da propriedade. Para um projeto de restauração de vegetação nativa o primeiro passo é fazer um diagnóstico da área, identificar qual o ecossistema de referência, determinar as espécies e qual técnica mais adequada para a situação”, explica.
Depois de elaborado, o projeto deve ser cadastrado no Sistema Informatizado de Apoio à Restauração Ecológica, para acompanhamento. “A quantidade de mudas e sementes plantadas também varia de acordo com as características da área. O importante é que os parâmetros de cobertura do solo com vegetação nativa, densidade de indivíduos nativos e número de espécies nativas regenerantes evoluam ao longo dos 20 anos de acompanhamento do projeto, de modo a alcança uma situação o mais próximo possível do ambiente original”, finaliza.
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